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O lado negro da tecnologia - efeitos perversos

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Um dos aspetos perversos desta web 2.0 é o vandalismo que persiste nas Wikis e Blogues, o que, além de pôr em causa estes espaços, provoca também um decréscimo de qualidade. Vários são os casos conhecidos de páginas Wiki que foram vandalizadas. Em Portugal, o caso com maior expressão foi o da página da Wikipédia do antigo primeiro-ministro José Sócrates, que, aquando das notícias da suposta ilegalidade da sua licenciatura foi diversas vezes alterada, tendo sido inclusivé removidas as referências ao caso da Universidade Independente. A maior polémica surgiu pelo facto dessas alterações terem sido feitas por um computador do governo. Serve este exemplo para alertar para o facto de todas as ações realizadas online deixarem um rasto - nomeadamente através do Endereço IP (Internet protocol) do computador - bem como para ilustrar o que atos de vandalismo na rede podem provocar, nomeadamente na desconstrução da inteligência coletiva descrita por Pierre Lévy. Contudo, o que alguns consideram a fraqueza das wikis (Binkley, 2006), outros consideram a sua força (Boulos et al., 2006), pois o facto de existirem múltiplos utilizadores a editar o documento tende a torná-lo mais verdadeiro e fiável. A este fenómeno dá-se o nome de Darwikinismo (Wikimedia) em alusão à teoria darwinista da seleção natural. No caso dos documentos online como as Wikis, todas as frases são sujeitas a escrutínio e múltiplas edições enquanto não estiverem corretas. Assim, neste processo evolutivo, os textos caminham para uma versão o mais correta possível.

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Se o vandalismo ocorre numa perspetiva do utilizador enquanto produtor de conteúdos, também a perspetiva de consumidor desses conteúdos está envolta em polémica, nomeadamente, o plágio. Segundo Stowers & Hummel (2011), plagiar representa o acto de roubar o intelecto de outra pessoa e pode ocorrer por ignorância, falta de conhecimento, referências mal feitas ou simplesmente propositadamente. O plágio, contudo, não é algo que apenas ocorra com a tecnologia, pois, como refere Parker (2010), copiar o texto de outros é provavelmente tão antigo quanto a própria escrita em si. Este autor refere ainda que o plágio não se cinge a estudantes, ele está presente em áreas como o jornalismo, a política e a ciência. Não sendo um problema exclusivo nem dos alunos nem do uso da tecnologia, é também um facto que este flagelo tem aumentado nos últimos anos. Uma investigação de Brown, Weible & Olmosk (2010) citados por Jones (2011) comprova isso mesmo. Segundo dados desse estudo, realizado com alunos não graduados, em 1988, 49% dos estudantes admitia ter copiado contra 100% dos estudantes em 2008. É portanto evidente que o plágio, por parte dos alunos, tem vindo a aumentar nos últimos anos, acompanhando o crescimento da Internet e do número de computadores por habitante.

Urge, portanto, encontrar alternativas para este fenómeno. O facto dos alunos admitirem que o fazem pode ser um ponto de partida para os consciencializar da gravidade e das implicações desta ação, Jones (2011) apresenta um conjunto de estratégias, nomeadamente:

  • Incluir um código de conduta de honestidade que seja transversal a todo o curso ou instituição, explicitando claramente o que não é honesto e como cada professor irá proceder nesses casos.
  • Apresentar o código de conduta de honestidade aos alunos na introdução da disciplina/curso, aquando da apresentação do programa da disciplina e dos seus intervenientes. Os alunos deverão ser encorajados a fazer o que é correto.
  • Entregar um questionário aos alunos, como uma caça ao tesouro pelo código de conduta da instituição, realizar atividades interativas como jogos sobre ética e apresentar hiperligações para tutoriais sobre “como detetar plágio” ou “tribunal do plágio: você será o juiz”, dando incentivos para os alunos que completem as atividades.
  • Utilizar software de deteção de plágio com os alunos para que estes comprovem o grau de plágio dos seus documentos, bem como ensiná-los a utilizar ferramentas automáticas de citações.
  • Exigir que os alunos citem as fontes, não apenas em trabalhos escritos, mas em apresentações digitais ou orais. Exigir também que escrevam as suas apresentações e as testem com os detetores de plágio.
  • Utilizar a Internet para ensinar o que é o plágio e como o evitar. Explicitar as vantagens e desvantagens de sites como a Wikipédia.

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Retirado de http://www.plagiarismchecker.net/

Por certo, ninguém negará que a Internet e, em particular, os motores de busca, fazem com que o acesso à informação seja mais rápido e fácil. Tal como Sparrow et al. (2011) afirmam, já não temos de fazer esforços dispendiosos para encontrar o que pretendemos, podemos “googlar” um antigo colega, encontrar artigos online, ou pesquisar sobre aquele ator cujo nome está na ponta da língua mas não nos recordamos. Segundo os mesmos autores, a Internet passou a ser uma forma primária de memória transativa ou externa, onde a informação é guardada coletivamente, fora de nós mesmos. A corroborar esta linha de pensamento estão quatro estudos, cujos resultados mostram que, quando confrontadas com questões difíceis, recorrem ao computador (Internet) e quando, mais tarde, necessitam de aceder a essa informação têm apenas uma vaga recordação da mesma, contudo conseguem lembrar-se de onde ela se encontra disponível (Sparrow et al., 2011). Face ao anteriormente exposto, a Internet e os computadores poderão estar a influenciar a nossa cognição de um modo negativo. Carr (2008) é mais incisivo ao afirmar que a Internet está a deteriorar a sua própria capacidade de concentração e de contemplação. O facto da Web estar repleta de hiperligações que nos remetem de uns sítios para outros, onde a informação surge de forma imediata e abundante, e o facto de, no momento em que “navegamos”, podermos receber informação de que recebemos um e-mail, estão a afetar a nossa capacidade de concentração. Não só a nossa capacidade de memorizar e de reter informação se alterou, mas também a nossa capacidade de nos concentrarmos numa leitura ou numa tarefa diminuiu drasticamente. A forma como lemos online tem transformado a forma como lemos fora do ecrã e a capacidade outrora de contemplação e de reflexão pode estar, efetivamente, a ser afetada.

Tendo em conta que os nossos alunos estão cada vez mais emersos neste mundo tecnológico e ligados à rede, importa conhecer o efeito que a utilização das TIC podem ter na sua saúde. Carr (2008) faz uma analogia interessante, ao referir que, quando o relógio mecânico surgiu, as pessoas diziam que os nossos cérebros iriam funcionar “como relógios”. Hoje, na era digital, diz-se que funcionarão “como computadores”. Contudo, a neurociência diz-nos que as mudanças que estamos a viver são mais drásticas do que isso, pois graças à plasticidade do nosso cérebro, a adaptação está a acontecer também ao nível biológico. Foi isso que um estudo com 2620 adolescentes chineses, que pretendia aferir o grau de adição dos alunos à Internet, constatou. Nesse estudo verificou-se, em primeira instância, que não é raro um adolescente chinês estar viciado na Internet. Mais preocupante ainda, identificou-se um conjunto de patologias que foram muito mais evidentes no grupo de alunos aditos à Internet. Cao & Su (2006), do departamento de psiquiatria da Central South University de Changsha, concluíram que no grupo de adolescentes dependentes da Internet havia maior incidência de jovens com hiperatividade, problemas de concentração, doenças neuróticas e psicóticas, problemas emocionais e ainda dificuldades de sociabilização. Estas conclusões são preocupantes e levam-nos a considerar uma maior moderação na utilização destas tecnologias, não apenas na sala de aula mas também em nossas casas.

Ficheiro:Concentracao.PNG

Retirado de: http://www.lukeshavak.com/

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