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Utilizador:Filipa-jorge/Enquadramento Teórico

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De WikiCampus

Tabela de conteúdo

Introdução

A segunda geração da Web trouxe consigo aspectos que revolucionaram o mundo que conhecemos hoje. Entre eles, estão a interactividade, a inclusão, a criação colaborativa, a literacia digital, o conteúdo gerado pelo utilizador (em inglês User Generated Content - UGC) e a publicação facilitada de muitos para muitos (Harrison & Thomas, 2009). A Web 2.0 permitiu, portanto, que o utilizador comum começasse a participar na divulgação do conteúdo on-line, deixando de ser um mero receptor para assumir, também, o papel de emissor. Neste sentido, o conteúdo disponibilizado na Web deixou de ser divulgado apenas pelos órgãos de comunicação tradicionais ou por especialistas de renome nas diversas áreas. O conteúdo publicado na Web passou, assim, a ser publicado, partilhado, discutido e votado pela totalidade dos seus utilizadores (Szabo & Huberman, 2010). A Web evoluiu para a comunidade que conhecemos hoje em dia, composta maioritariamente pelos chamados social media, como as redes sociais, blogues, micro-blogues, plataformas de partilha de conteúdos, entre outros.


O surgimento das redes sociais on-line que, como referido anteriormente, pertencem ao grande grupo dos media sociais marcou a sociedade em que vivemos actualmente, sendo que os indivíduos começaram a ter uma presença mais regular na Web através da criação de perfis e de redes de “amigos”. A complexidade da arquitectura destas plataformas foi evoluindo com o passar do tempo e com o surgimento de novos serviços do género e, consequentemente, o conteúdo disponibilizado pelos utilizadores registados foi assumindo variadas formas. Se antes era apenas possível publicar texto e imagem estática, hoje em dia, plataformas como o Facebook, já permitem a publicação de vídeos produzidos pelos seus utilizadores . Para além disso, a partilha de conteúdos disponibilizados por toda a Web pode ser publicada pelos utilizadores das redes sociais nos seus perfis, em variados formatos e de uma forma facilitada.


Neste sentido, o objectivo do presente projecto de investigação é apurar as especificidades da apresentação do eu on-line aquando da utilização de conteúdos audiovisuais para esse efeito. Pretende-se, pois, estudar a utilização que os utilizadores das redes sociais, mais especificamente do Facebook, fazem dos três principais formatos disponíveis para difundir informação e comunicar na Web actualmente: texto, imagem estática e vídeo. O estudo tem, assim, como objectivo responder à questão de investigação “Qual a utilização dada aos conteúdos audiovisuais, pelos sujeitos, no contexto da sua auto-apresentação em plataformas de comunicação on-line?”. Como será demonstrado no decorrer desta revisão da literatura, o vídeo não tem sido muito associado às questões da auto-apresentação, daí que este tema se torne inovador e pertinente, na tentativa de dar mais um passo na investigação relativa à auto-apresentação on-line. No presente trabalho, a denominação “conteúdos audiovisuais” será muitas vezes utilizada para identificar o formato que se pretende estudar: o vídeo on-line. Interessa, portem, salientar que as especificidades do áudio não serão particularmente analisadas.


Segundo Zarghooni (2007), as teorias estabelecidas na era pré-Internet, sobre a apresentação do eu aplicam-se em grande medida ao comportamento de auto-apresentação dos utilizadores do Facebook. No entanto, a tecnologia muda-nos como pessoas, altera as nossas relações e a percepção que temos de nós mesmos (Turkle, 1997). Este estudo não pretende, portanto, criar uma nova teoria, mas sim analisar os conhecimentos difundidos nas já estabelecidas, à luz da nova realidade trazida pela Web 2.0 e, mais concretamente, pelas redes sociais.


Durante o capítulo dedicado ao enquadramento teórico, irão ser explanados conceitos base relativos ao tema em estudo. Neste sentido, começar-se-á por contextualizar e definir a Comunicação Mediada por Computador, com enfoque nas redes sociais e, especificamente, o Facebook, estudo de caso no presente projecto. Seguidamente, especificar-se-ão as características dos conteúdos audiovisuais, especificamente na forma do vídeo on-line. Será, também, dedicada uma secção à auto-apresentação, retratando, numa primeira fase, as teorias expostas numa era anterior à Internet para depois compreender as especificidades trazidas por este meio às mesmas, contextualizando, numa segunda fase, as especificidades da auto-apresentação em formato vídeo relativamente à auto-apresentação face-a-face ou à auto-apresentação on-line utilizando outros formatos, nomeadamente o texto.

Plataformas de comunicação on-line: Contextualização e Definições

Comunicação Mediada por Computador (CMC)

Segundo Blumer (2010), a Comunicação Mediada por Computador (CMC) é uma forma de comunicação humana, que ocorre com recurso à utilização de dois ou mais computadores ligados em rede.

Ao analisar os resultados do relatório “A Utilização de Internet em Portugal 2010” (LINI, 2010) pode estabelecer-se uma tipologia actual quanto às plataformas de comunicação on-line:

1) E-mail;

2) Telefonemas através da Internet;

3) Chats e grupos de discussão;

4) Serviços de mensagens instantâneas;

5) Blogues;

6) Redes Sociais.

No presente estudo, impõe-se compreender o funcionamento de dois dos tipos de plataforma de comunicação on-line acima indicados: as redes sociais e os serviços de mensagens instantâneas. As redes sociais são, neste sentido, um dos pilares deste projecto de investigação ao qual serão dedicadas duas secções de contextualização neste capítulo (secções 2.2. e 2.3.), enquanto os serviços de mensagens instantâneas aglomeram funcionalidades com base em texto, imagem estática, áudio e vídeo, permitindo uma comunicação com características aproximadas da comunicação face-a-face.

Segundo o relatório sobre a utilização da Internet em Portugal no ano de 2010 elaborado pela LINI (2010), a funcionalidade mais utilizada pelos portugueses para efeitos de comunicação continua a ser o e-mail (89%). Os serviços de mensagens instantâneas, por sua vez, são utilizados com uma frequência mensal ou superior por 74.5% dos indivíduos que compunham a amostra. As redes sociais surgem na terceira posição, com mais de metade dos internautas a utilizar este tipo de plataformas (56.4%).

Mayfield (2007), explica, no e-book “What is social media?” publicado em 2007 pela iCrossing , que as redes sociais on-line são um sub-grupo dos chamados “Media Sociais" (do conceito inglês Social Media). Os Media Sociais são um novo grupo de media on-line, que se caracteriza pela sua componente participativa e aberta (encorajam a contribuição e feedback por parte de todos os interessados, atenuando a barreira entre media e audiência); comunicativa; de criação de comunidades e de conectividade. Segundo o autor (2007), os Media Sociais podem ser divididos em seis sub-grupos: Redes Sociais, Blogues, Wikis, Podcasts, Fóruns, Comunidades de conteúdo e Micro-blogues. As redes sociais, conceito que importa realçar no presente estudo, serão definidas e contextualizadas com mais profundidade nas secções 2.2. e 2.3. deste capítulo, pelo que importa apenas nesta fase enquadrá-las no âmbito da Comunicação Mediada por Computador. Por sua vez, como já foi referido, o serviço de mensagens instantâneas incorpora funcionalidades de e-mail, embora possibilite uma comunicação em tempo real com voz, mensagens escritas e vídeo-conferência. Este serviço permite uma comunicação mais instantânea, como o próprio nome indica, satisfazendo a necessidade actual de rapidez. Algumas das potencialidades dos serviços de mensagens instantâneas são o feedback instantâneo, que permite manter o fluxo comunicacional natural; a possibilidade de incluir comunicação verbal e não verbal; a utilização da linguagem natural; a transmissão de emoções e as suas funcionalidades permitirem uma comunicação com características aproximadas da comunicação presencial (Bakar & Johari, 2009). Alguns exemplos de serviços de mensagens instantâneas são o MSN Messenger, o Skype, o Google Talk e o Yahoo Messenger.

Os dados do LINI (2010) mostram que os três serviços de mensagens instantâneas mais utilizados em Portugal são o MSN Messenger (56.7%), o SAPO MSN (18.6%) e o Chat do Facebook (17.4%). O Facebook, apesar de ser uma rede social, começou recentemente a fornecer aos seus utilizadores registados um serviço de chat, que lhes permite conversar com os utilizadores com quem se encontram conectados na sua rede de amigos. O facto de ser o terceiro serviço de mensagens instantâneas mais utilizado em Portugal demonstra o impacto do Facebook na sociedade portuguesa e o esforço que esta plataforma fez em renovar o paradigma das redes sociais on-line, agregando novas funcionalidades que melhorem a comunicação entre os seus utilizadores .

Para além disso, o mesmo estudo (2010) indica que, apesar de apenas 35.8% dos utilizadores inquiridos partilharem conteúdos gerados por si, os conteúdos criados e disponibilizados em maior número na Web, pelos utilizadores portugueses, são as actualizações de estados em programas de mensagens instantâneas ou em redes sociais (29.5%) e comentários em blogues e murais de outros utilizadores (25.4%). Assim sendo, plataformas de comunicação on-line como os serviços de mensagens instantâneas e as redes sociais constituem espaços onde os utilizadores mais partilham os conteúdos criados por si, nem que sejam estados de espírito ou opiniões.

Como seria de prever, a CMC trouxe consigo alterações à comunicação face-a-face. Para além disso, a segunda geração da Web alterou a Comunicação Mediada por Computador que existia até então, tal como realça Blumer (2010): “After the emergence of Web 2.0, purely text-based CMC has become less important. For instance, communication on social networking sites (SNSs) like Facebook, but also applications such as Skype, include not only text but also a number of additional modes of communication (e.g. pictures, video or sound) which are likely to play a role in human interaction”. No entanto, para Blumer (2010), a principal forma de Comunicação Mediada por Computador continua a ser aquela que é baseada em texto. Segundo o autor (2010), a CMC diferencia-se da comunicação face-a-face principalmente devido às seguintes características:

1. Interpretação reduzida: não existe informação extra proveniente da linguagem corporal, dos pormenores vocais ou de interpretações sociais, como é o caso da aparência física, do vestuário, entre outros aspectos.

2. Anonimato e distância: existe a possibilidade de contactar o outro anonimamente.

3. Possibilidade de mais facilmente seleccionar a auto-apresentação: os indivíduos podem decidir que informação querem partilhar. A possibilidade de falsificar factos é mais elevada.

Na Tabela 1 é possível observar que Blumer (2010) distingue a Comunicação Mediada por Computador com recurso às redes sociais, típicas da Web 2.0, da Comunicação Mediada por Computador apenas baseada em texto. Este facto demonstra que as redes sociais combinam elementos multimédia. Mais do que a possibilidade de utilizar texto nas redes sociais, o utilizador pode recorrer a imagem estática, áudio e vídeo. Para além disso, a Comunicação Mediada por Computador apenas baseada na utilização de texto pressupunha um certo anonimato, sendo que a utilização de fotografias é um dos elementos que mais marca as redes sociais on-line, fazendo com que estas sejam consideradas ambientes não anónimos. Para além disso, a utilização de fotografia pode ser aliada à arquitectura do perfil, que permite uma descrição pormenorizada do utilizador. Neste sentido, a multimedialidade das redes sociais on-line torna-as completamente inovadoras em relação, por exemplo, aos chats ou aos grupos de discussão, onde a comunicação se baseia unicamente na utilização de texto.

Tabela 1: Características da Comunicação Mediada por Computador baseada em texto e nas redes sociais on-line em comparação com a comunicação face-a-face

(Fonte: “Face-to-face or Facebook: Are shy people more outgoing on Social Networking Sites?”, Blumer, 2010)

Quanto à imagem estática, o elemento que mais interessa no contexto do presente projecto de investigação é a fotografia, nomeadamente a fotografia de perfil e as que são exibidas pelo utilizador na galeria de fotografias que o Facebook disponibiliza. Neste sentido, as imagens de perfil dos utilizadores podem ser consideradas uma forma "implícita" de construção de identidade na qual os utilizadores disponibilizam características pessoais (Strano, 2008). Por vezes, as imagens são editadas até que o utilizador alcance o resultado pretendido, que, muitas das vezes, reflecte normas aceites socialmente, tais como noções de família, relacionamentos amorosos, etc. É a diferença entre "tirar fotografias" e "fazer fotografias". Hoje em dia, ao contrário do que acontecia na era do analógico, qualquer indivíduo pode editar uma fotografia, basta para isso ter um computador com o software disponível.

Também Siibak (2010), conclui que os indivíduos utilizam a fotografia para enfatizar qualidades que consideram importantes, de acordo com um conjunto de regras socialmente aceites. As redes sociais on-line são, por ventura, um dos serviços com mais sucesso trazidos pela Web 2.0. Estas plataformas permitem a Comunicação Mediada por Computador através da conjugação de diferentes formatos (texto, imagem estática, vídeo, entre outros) e da criação de uma rede de amigos. Como já foi mencionado, as secções seguintes servirão para aprofundar o conceito de rede social on-line, as suas especificidades, arquitectura e evolução.

Rede social on-line: Definição e Caracterização

O termo “rede social” refere-se a “um grupo de indivíduos que, de forma agrupada ou individual, se relacionam uns com os outros, com um fim específico, caracterizando-se pela existência de fluxos de informação” (Alejandro & Norman, 2005). A utilização do termo “rede social on-line” refere-se, portanto, às ferramentas on-line que permitem a criação de um perfil, com o objectivo de construir uma rede própria de cada indivíduo com outros indivíduos, que, na maior parte das vezes, têm interesses em comum. A troca de diferentes conteúdos nestas redes só é possível graças à sua forte componente interactiva, que permite a qualquer utilizador registado publicar conteúdo. Daí que os media sociais sejam frequentemente identificados como um novo grupo de media on-line, que se caracteriza pela sua componente participativa e aberta, encorajando a contribuição e feedback por parte de todos os utilizadores com o objectivo de atenuar a barreira entre media e audiência (Mayfield, 2007).

Segundo dados de 2009 da Nielsen Company (Nielsenwire, 2010a), os consumidores americanos passaram mais de 5h30m diariamente em redes sociais on-line como o Facebook em Dezembro de 2009, um crescimento de 82% em relação ao mesmo mês no ano de 2008 (Gráfico 1) . Este facto demonstra a importância crescente que as redes sociais têm vindo a tomar não só na Web como também na sociedade em que vivemos.


Gráfico 1: Tempo gasto pelos utilizadores americanos nas redes sociais on-line

(Fonte: “Led by Facebook, Twitter, Global Time Spent on Social Media Sites up 82% Year over Year”, The Nielsen Company, 2010)

Boyd & Ellison (2007) descrevem o fenómeno das redes sociais on-line como um novo serviço na Web, que permite construir um perfil público ou semi-público dentro de um sistema limitado, articular a lista de outros utilizadores com quem o utilizador partilha uma conexão e, por último, percorrer a sua rede de amigos e as redes de amigos de outros utilizadores dentro do sistema. No entanto, Blumer (2010) defende que a terceira condição não pode ser considerada, actualmente, como uma definição muito central e generalizada, visto o MySpace, por exemplo, dar a possibilidade aos seus utilizadores de “esconder” os seus contactos, enquanto o Facebook permite que o utilizador fique “invisível” aos outros utilizadores nas listas de contactos. As novas possibilidades de configuração de privacidade trouxeram, portanto, alterações à definição de Boyd & Ellison (2007), principalmente no que toca à visibilidade da rede social dos sujeitos.

Os autores (2007) sentem necessidade de distinguir entre os dois conceitos ingleses "social network sites" e "social networking sites":

"‘Networking’ emphasizes relationship initiation, often between strangers. While networking is possible on these sites, it is not the primary practice on many of them, nor is it what differentiates them from other forms of computer-mediated communication (CMC)… What makes social network sites unique is not that they allow individuals to meet strangers, but rather that they enable users to articulate and make visible their social networks. This can result in connections between individuals that would not otherwise be made, but that is often not the goal, and these meetings are frequently between ‘latent ties’… who share some offline connection. On many of the large SNS, participants are not necessarily ‘networking’ or looking to meet new people; instead, they are primarily communicating with people who are already a part of their extended social network. To emphasize this articulated social network as a critical organizing feature of these sites, we label them 'social network sites'”.

Para fazer parte de uma rede social on-line, é necessário criar um perfil para que depois se possa construir uma rede própria, através do contacto com outras pessoas com interesses comuns. A troca de diferentes conteúdos nestas redes só é possível graças à sua forte componente interactiva (caracterizadora da Web 2.0), que possibilita a qualquer utilizador registado publicar conteúdo. Existem várias redes sociais especializadas numa área de interesse: o MySpace, por exemplo, construiu a sua popularidade pela sua forte componente musical, sendo que é utilizado por milhões de bandas em todo o mundo para promover álbuns, concertos, etc.

Para Harrison & Thomas (2009), na base das redes sociais on-line estão os perfis dos utilizadores e a rede de "amigos" que os mesmos criam. Os perfis, na maior parte das vezes, baseiam-se na disponibilização de uma fotografia do utilizador, a idade, localização, interesses e descrições do dono do perfil. Uma vez o perfil criado, os utilizadores tornam-se membros de uma comunidade on-line, começando a criar uma lista de "amigos"que irá formar a base da sua rede social. Este processo acontece de duas formas:

- Em primeiro lugar, os utilizadores enviam pedidos de amizade para um potencial novo membro da sua rede social. Neste caso, a relação baseia-se em consenso e reconhecimento;

- Em segundo lugar, a maioria das redes sociais também tem a funcionalidade de criação de grupos, o que permite criar grupos sobre um tema ou interesse. Os utilizadores podem, assim, juntar-se a um determinado grupo, que pode ou não ter um moderador, e receber informações dos outros utilizadores aliados ao grupo.

Utz (2010) relembra que o termo "amigo" nas redes sociais não é utilizado da forma tradicional, sendo que um "amigo" on-line pode ser alguém com quem o utilizador nunca teve contacto, como por exemplo uma celebridade. O termo personifica uma ligação que pode existir entre dois utilizadores nas redes sociais. Estes amigos poderão comentar o perfil uns dos outros, disponibilizando informação sobre si ou sobre o utilizador a quem estão ligados. Nas redes sociais on-line os indivíduos chegam a ter centenas ou até milhares de amigos. Boyd & Ellison (2007) defendem que um amigo numa rede social on-line não é necessariamente um bom amigo, ou sequer um amigo no contexto off-line.

Segundo O'Reilly e Scholz (como citado por Harrison & Thomas, 2009), as formas mais rudimentares de redes sociais começaram a surgir entre a Web 1.0 e a Web 2.0, há uma década atrás. No entanto, este tipo de serviços começou a ser rentável e a marcar a sua posição na Web apenas em 2003, com o surgimento do MySpace e, mais tarde, com o surgimento do Facebook, que revolucionou o paradigma das redes sociais até aí existentes.

Rede social on-line: Evolução e surgimento do Facebook

Boyd & Ellison (2007) retratam um pouco a história e evolução deste tipo de plataformas, mencionando que aquela que é considerada a primeira rede social data de 1997 e denominava-se de SixDegrees.com. Esta plataforma combinava os perfis, com os amigos e com o envio de mensagens. No entanto, o site fechou em 2000 por não ter um modelo de análise sustentável. A falta de utilizadores e a rede social pouco extensa, assim como a falta de apelo para contactar novos amigos, culminou no fecho do site. Em 1999, vários sites começaram a incorporar funcionalidades interactivas e, em 2001, surgiram redes sociais empresariais ou profissionais como o Ryze.com e o LinkedIn. O surgimento de redes sociais como o Friendster, MySpace e Facebook marcou uma nova era, em que as redes sociais começaram a abranger nichos de mercado mais alargados.

Com o fracasso do Friendster, surgiu em 2003 uma nova onda de redes sociais que tiraram proveito da emergência da partilha de conteúdos multimédia e da capacidade dos utilizadores para criar o seu próprio conteúdo com editores WYSIWYG (What You See is What You Get). O MySpace foi o primeiro fenómeno verdadeiramente global, com a disponibilização de novos recursos que permitiam a personalização do conteúdo. No entanto, a última onda deste tipo de plataformas teve início em 2004, com o surgimento do Facebook, a rede social on-line com mais sucesso actualmente, que começou por ser uma rede social da Universidade de Harvard. Esta rede social marcou a diferença por apostar na personalização da privacidade do perfil, não disponibilizando as informações contidas no mesmo a todos os utilizadores da comunidade, assim como possibilitando que sejam criadas aplicações compatíveis, com o seu sistema, por empresas ou utilizadores individuais, que funcionam como "add-ons" ao site. Parte do sucesso do Facebook deve-se, portanto, ao seu carácter aberto, visto qualquer pessoa poder desenvolver aplicações e divulgá-las na comunidade. Para além disso, o Facebook providencia uma arquitectura de perfil sofisticada, que incentiva os utilizadores a criar informação muito detalhada sobre si mesmos, assim como gerir o seu nível de privacidade sobre a informação que é tornada pública.

Uma breve evolução das redes sociais on-line pode ser observada na Figura 1, retirada do artigo “Social Network Sites: Definition, History, and Scholarship” de Boyd & Ellison (2007).


Figura 1: Evolução das plataformas de redes sociais on-line

(Fonte: “Social Network Sites: Definition, History, and Scholarship”, Boyd & Ellison, 2007)

Como é possível observar na Figura 1, o Facebook surgiu em Fevereiro de 2004 apenas como uma rede social para estudantes de Harvard, sendo que, em Março do mesmo ano, expandiu-se para outras universidades americanas, tais como Stanford, Columbia e Yale. Em Dezembro de 2004, o Facebook já tinha cerca de um milhão de utilizadores activos (utilizadores que visitam o site nos últimos 30 dias antes das contagens). Em Maio de 2005, o Facebook expandiu-se a mais 800 universidades e, em Setembro do mesmo ano, a rede social abrangia, também, as escolas secundárias de todo o país. Ainda no mesmo ano, o Facebook começou a abrir-se ao estrangeiro, expandindo-se a algumas escolas e universidades de outros países. Em Dezembro de 2005, o Facebook tinha já mais de 5.5 milhões de utilizadores activos. A grande alteração deu-se em Setembro de 2006, quando o Facebook começou a permitir o seu registo a qualquer utilizador, estudante ou não. Em Dezembro de 2006, o Facebook tinha já mais de 12 milhões de utilizadores activos. Com o passar dos anos, o Facebook foi crescendo, tornou-se cada vez mais conhecido e modernizou o seu serviço como nunca nenhuma rede social o tinha feito anteriormente. Como resultado, em Julho de 2010, a rede social ultrapassou os 500 milhões de utilizadores activos (Facebook, s/d-b).

Para além disso, importa salientar que 50% dos utilizadores do Facebook efectuam o login diariamente, a média de amigos dos utilizadores da rede social é de 130, os utilizadores passam mais de 700 mil milhões de minutos por mês na plataforma, mais de 30 mil milhões de “pedaços” de conteúdo (ligações, fotografias, etc.) são partilhadas por mês, mais de dois milhões de sites integram o Facebook actualmente (através da aplicação “Facebook Connect”) e existem mais de 200 milhões de utilizadores activos que acedem à plataforma através do telemóvel (Facebook, s/d-a). Actualmente, cerca de 70% dos utilizadores do Facebook não são dos Estados Unidos da América (EUA) . No caso português, em 2010, a rede social mais utilizada continuava a ser o Hi5, com uma percentagem de 42.6% de utilizadores registados, seguido do Facebook, que tem crescido de ano para ano, com 39.7% (LINI, 2010). Apesar de o Facebook apresentar uma distribuição por género homogénea em Portugal, com uma ligeira tendência de adesão por mulheres, “a utilização das redes sociais decresce à medida que a idade aumenta – a mesma tendência se verifica em relação ao uso da Internet” (LINI, 2010). A faixa etária que mais utiliza esta rede social on-line é a dos 15 aos 24 anos (42.3%).

Como visto anteriormente, para além das redes sociais, como é o caso do Facebook, a Web 2.0 trouxe uma grande variedade de serviços de partilha, que podem assumir vários formatos. São exemplo disso as comunidades para partilha de vídeo, fotografia, música, blogues, wikis e social bookmarking. A Web 2.0 permitiu que o utilizador comum começasse a participar na divulgação do conteúdo on-line, deixando de ser um mero receptor para assumir, também, o papel de emissor: "The importance of video-sharing web sites is that they represent the potential for Internet TV to create opportunities for new voices to be heard by large audiences" (Hart, 2008). A Web evoluiu, assim, para a comunidade que conhecemos hoje em dia, composta maioritariamente pelos chamados social media, como as redes sociais, blogues, micro-blogues, plataformas de partilha de conteúdos, entre outros. No âmbito do presente trabalho, interessa, pois, analisar as especificidades do vídeo on-line, formato em grande expansão para a distribuição de conteúdos on-line.

Especificidades dos conteúdos audiovisuais

Os conteúdos audiovisuais divulgados na Internet têm características próprias, que os diferenciam dos outros formatos de publicação e até mesmo dos conteúdos audiovisuais disponibilizados em outros meios de comunicação. No contexto deste projecto, interessa, principalmente, compreender algumas das especificidades do vídeo on-line, sendo que as especificidades do áudio não são neste capítulo focadas.

Segundo Oumard et al. (Oumard, Mirza, Kroy, & Chorianopoulos, 2008), a difusão da Internet entre a população ocidental trouxe consigo um notável aumento de serviços de streaming de vídeo, como é o caso do Youtube, e de arquivos de partilha, que representam um elevado tráfego na Internet. Altschuler (2010) defende que o crescente sucesso do vídeo on-line está relacionado com o facto de ser possível um upload rápido de muita informação.

As novas tecnologias de comunicação e informação têm contribuído positivamente para o livre discurso e actividade criativa (Hart, 2008). Existem vários exemplos no Youtube que alcançaram uma grande audiência com um baixo custo de produção. Na maior parte das vezes, estes vídeos começaram por ser filmados por apenas um indivíduo, com uma câmara amadora ou uma câmara Web. Szabo & Huberman (2010) realçam o facto de, com a Internet, ser possível para os criadores de conteúdo, tanto individuais como empresariais, abranger uma audiência composta por um número inimaginável de indivíduos, o que pode não acontecer com outros meios de comunicação.

O número de visualizações únicas de vídeo on-line sobe 5.2%, em média, anualmente, de acordo com dados da Nielsen Company (Nielsenwire, 2010b). No início de 2010, o número de visualizações únicas tinha passado de 137.4 milhões em Janeiro de 2009 para 147.7 milhões em Janeiro de 2010 . Existem dois métodos de distribuir vídeos na Internet: o download e o streaming. Segundo Hart (2008), o download envolve a transferência prévia do ficheiro digital para o dispositivo do consumidor, normalmente através de uma variante do protocolo de transferência de ficheiros (FTP). No método de download, o utilizador tem de aguardar que a transferência do ficheiro esteja completa, para visualizá-lo num software de leitura instalado no seu computador. No entanto, o download progressivo segue o protocolo HTTP, sendo o visionamento do ficheiro linear à medida que o mesmo é descarregado. Por outro lado, o método de streaming consiste numa negociação de condições de rede e ficheiros a entregar (server side), permitindo "saltar" para qualquer ponto no vídeo, assim como partilhar streams entre utilizadores e associar o modelo peer-to-peer. O streaming permite a visualização de conteúdos audiovisuais antes dos respectivos ficheiros terem sido totalmente descarregados. Uma das grandes revoluções técnicas que impulsionou a difusão do vídeo on-line foi o Flash Video (FLV), nomeadamente a inclusão do respectivo player na maior parte dos browsers. Este formato permitiu que os vídeos fossem comprimidos para um tamanho muito mais reduzido que o original, facilitando, consequentemente, a sua proliferação. Por outro lado, permitiu que os ficheiros fossem utilizados em várias aplicações. O Youtube, por exemplo, utiliza ficheiros FLV e o método de streaming progressivo.

Uma das principais características do vídeo on-line realçadas por Hart (2008), é o facto de muitos dos vídeos publicados serem criados pelos utilizadores. Esta prática denomina-se de “vídeo gerado pelo utilizador” (do inglês User-Generated Video – UGV), conceito mais restrito do já falado “conteúdo gerado pelo utilizador” (do inglês User Generated Content – UGC), uma das grandes novidades trazidas pela segunda geração da Web. A maioria dos vídeos criados pelos utilizadores são doados voluntariamente, enquanto alguns dos utilizadores são pagos para publicar as suas criações na Web. Muitas das plataformas de divulgação de vídeos na Internet disponibilizam funcionalidades típicas das redes sociais, como acontece com o Youtube, onde é possível partilhar vídeos, comentar, votar, entre outras funcionalidades. Para além disso, redes sociais como o MySpace e o Facebook permitem que os utilizadores publiquem e divulguem os seus vídeos pelos seus amigos. A combinação das redes sociais com a publicação de vídeos faz com que os ficheiros de vídeos sejam utilizados juntamente com o texto e fotografias, para manter uma relação com os amigos on-line.

Segundo dados da Nielsen Company de 2009, o tempo gasto pelos utilizadores norte-americanos, na visualização de vídeos em redes sociais on-line, tinha aumentado 98%, de 503.8 milhões de minutos em Outubro de 2008 para 999.4 milhões de minutos em Outubro de 2009 (Nielsenwire, 2009). O número de vídeos on-line visualizados em redes sociais e blogues aumentara 98%, de 240.8 milhões de streams em Outubro de 2008 para 349.5 milhões em Outubro de 2009 .

“During the past year, online video viewing has become central to the Web experience. In conjunction with this increase, we are seeing remarkable growth in video viewing on social networking sites and it is only natural that these two trends would converge in consumers’ minds, making sites like Facebook and Myspace.com, increasingly important distribution points for both consumer and professionally generated video,” afirmou, nessa altura, Jon Gibs, vice presidente da Nielsen Company (como citado por Nielsenwire, 2009).

O Facebook é a rede social on-line com uma maior quantidade de streams, obtendo 217.8 milhões de vídeos difundidos durante o mês de Outubro de 2009 (Nielsenwire, 2009) , (Gráfico 2).

Gráfico 2: Redes sociais on-line e blogues com mais streams de vídeo em Outubro de 2009

(Fonte: “Time Spent Viewing Video on Social Networking Sites Up 98% Year-Over-Year In October”, The Nielsen Company, 2009)

Durante o período analisado (de Outubro de 2008 a Outubro de 2009), a visualização de vídeos por utilizadores norte-americanos no Facebook aumentou 1840%, de 34.9 milhões de minutos para 677 milhões em 2009, respectivamente (Nielsenwire, 2009) . “Facebook’s rapid growth in online video during the last year illustrates the site’s evolution from simply a communications focused tool to a media portal. Social networking sites are evolving from a venue for catching up with friends to a platform for personal expression, allowing consumers to share their experiences in the full variety of content formats available online”, defendeu, naquela altura, Gibs (como citado por Nielsenwire, 2009). Para além disso, segundo dados da Nielsen Company (Nielsenwire, 2010b), o Facebook é a terceira plataforma com um maior crescimento no número de visualizações únicas de vídeo on-line (Tabela 2), com uma percentagem de 18.6% em Janeiro de 2010, respectivamente .

Tabela 2: Top 10 das plataformas com mais visualizações únicas de vídeo em Janeiro de 2010

(Fonte: “Total Viewers Of Online Video Increased 5% Year-Over-Year”, The Nielsen Company, 2010)

Apesar de todo este crescimento no que toca à visualização de vídeos através das redes sociais e, mais especificamente, através do Facebook, em Portugal, apenas 36.2% dos utilizadores que se encontram registados em redes sociais on-line publicam vídeos nos seus perfis (LINI, 2010). Como seria de esperar, a faixa etária que mais publica vídeos nestas plataformas é a dos 15 aos 24 anos, com uma percentagem de 36.1%. Por outro lado, a faixa etária que menos publica vídeos são os utilizadores com 55 anos ou mais.

As redes sociais, tal como o Facebook, permitem, também, que os seus utilizadores publiquem na plataforma ligações a vídeos publicados em plataformas de visualização de vídeo, como é o caso do Youtube. No Facebook, esta funcionalidade é denominada de “ligações” e possibilita que os utilizadores façam ligações a adicionem um endereço da Web ao conteúdo externo. O aspecto das ligações diferencia-se da publicação de um simples link, sendo que o aspecto das ligações não é meramente textual, apresentando uma espécie de printscreen do conteúdo publicado no site ou, no caso do vídeo, o player para visualização do vídeo. Esta funcionalidade permite, assim, que o utilizador que visualiza a publicação não tenha de aceder directamente ao endereço original para visualizar o vídeo, sendo que o mesmo fica incorporado na página do Facebook. No presente estudo, parte-se, portanto, do pressuposto que uma grande quantidade de vídeos associados ao perfil dos utilizadores, que compõem a amostra, seja proveniente de outras plataformas de publicação de vídeo, com enfoque para o Youtube. “Social networks, Facebook in particular, and online video, Youtube in particular, are important components of web 2.0 technologies. These technologies are characterized by user-generated content, multi-ray communication, and multi-media content” (Roberston et al., 2009).

Robertson et al. (2009) analisaram as ligações de vídeos provenientes do Youtube publicadas pelos utilizadores nos murais de Barack Obama, Hillary Clinton e John McCain durante os dois anos que antecederam as eleições presidenciais americanas de 2008 (de 1 de Setembro de 2006 a 30 de Setembro de 2008). O objectivo foi, pois, o de compreender de que forma o Youtube e o Facebook estão relacionados um com o outro através dos comportamentos de publicação dos utilizadores no Facebook. Os autores (2009) defendem que as discussões políticas nas redes sociais não podem apenas ser vistas sob a utilização de texto e que o Facebook e o Youtube não podem ser vistos apenas como ambientes de informação isolada.

Segundo Robertson, Vatrapu, & Medina (2009), a ligação entre sites de partilha de vídeo como o Youtube e as redes sociais simboliza levar um vídeo para a discussão pública, demonstrando-o como uma parte da mesma. “Thus, the content of the video becomes as much a part of the discussion as the words themselves” (Robertson, et al., 2009). De 1 de Setembro de 2006 a 30 de Setembro de 2008, 76.045 indivíduos criaram 687.626 publicações nos murais dos três candidatos às presidenciais americanas. 39.600 (5.7%) das mesmas incluíam ligações, sendo que, 9.497 destas eram ligações para o Youtube. Estes dados indicam, portanto, que 1.4% da totalidade das publicações continha uma ligação para o Youtube. Para além disso, 24% da totalidade das publicações com ligações a sites exteriores continha uma ligação para um vídeo da plataforma Youtube.

Após a análise dos dados, os autores (2009) concluíram que aproximadamente 61% de todas as ligações ao Youtube, que faziam parte do corpus de dados eram publicadas sem texto, o que demonstra, segundo eles, que os participantes utilizam o vídeo on-line para marcar a sua posição relativamente a questões políticas em diálogos nas redes sociais. As discussões políticas nas redes sociais não podem, assim, ser apenas vistas sob a utilização de texto, sendo que os utilizadores utilizam outros formatos para expressar as suas ideias e opiniões.

O surgimento da Internet e as potencialidades da mesma para divulgação de conteúdos criados pelo utilizador trouxe alterações às teorias de auto-apresentação anteriormente estabelecidas. Investigadores e teóricos começaram a interessar-se pela utilização e presença dos utilizadores em serviços Web, à luz dessas teorias, tendo, principalmente, como base a teoria dramatúrgica de Goffman. No contexto do presente trabalho é também pertinente avaliar as especificidades da auto-apresentação tendo em conta os diferentes formatos de publicação que a Internet possibilita, tais como o texto, imagem estática e o próprio vídeo.

Auto-apresentação

A presente secção tem como objectivo explanar as teorias e conceitos da auto-apresentação, que mais marcaram a era anterior ao surgimento da Internet, assim como compreender de que forma a investigação evoluiu quando surgiram os serviços por ela trazidos, com enfoque nas redes sociais e, mais concretamente, no Facebook.

A teoria dramatúrgica de Goffman

“A vida pode não ser bem um jogo, mas é-o a interacção” (Goffman, 1959).

A teoria dramatúrgica que Erving Goffman apresentou em 1959 está enraizada na psicologia social, tendo dado origem a vários trabalhos posteriores. Na sua teoria, Goffman (1959) analisa o comportamento humano na sociedade, utilizando como metáfora o meio teatral e os seus conceitos e definições. O indivíduo é comparado a um actor e a sua conduta a uma representação. A vida em sociedade é altamente comparada a uma encenação. Os indivíduos são actores que actuam num palco (contexto habitual de interacção), estruturando o seu desempenho para impressionar a plateia (outros indivíduos). A comunicação interpessoal é, assim, uma representação, na qual são apresentadas as várias vertentes do eu (do termo inglês self), que serão, também, retratadas nesta secção (Littlejohn, 1988).

Na sua teoria dramatúrgica, Goffman (1959) define palco (front-stage) como o espaço observável, onde os indivíduos constroem e disponibilizam as suas performances, representando o seu papel. Por outro lado, os bastidores (back-stage) são uma área mais privada, onde os indivíduos podem relaxar um pouco da rigidez do seu desempenho (como citado por Pearson, 2009). Segundo Pearson (2009), no contexto off-line, a separação entre estes dois espaços é caracterizada por uma barreira física (porta, muro, etc).

A interacção face-a-face (do inglês face engagement), também denominada de "encontro", ocorre quando os indivíduos têm um único foco de atenção e uma só actividade muito percebida. Por outro lado, na interacção não-focalizada as pessoas, em locais públicos, reconhecem a presença de outros, mas não focalizam a sua atenção. Durante a interacção desenvolve-se a relação, com comunicação verbal e não-verbal, sendo que é definida mutuamente a situação (Goffman, 1959). Segundo o autor (1959), a interacção diz, assim, respeito à influência recíproca dos indivíduos sobre as acções uns dos outros numa situação de presença física imediata. Os participantes contribuem para uma única definição global da situação, naquilo que Goffman (1959) denomina de “modus vivendi interactivo”.

Goffman explica no seu livro “Frame Analysis”, publicado em 1974, (como citado por Littlejohn, 1988): "Estou sugerindo que, com frequência, o que os faladores se empenham em fazer não é dar informação a um ouvinte mas representar pequenas peças de teatro para uma plateia. Na verdade, parece que consumimos a maior parte do nosso tempo empenhados não em dar informações mas em oferecer shows. E observa-se que essa teatralidade não se baseia em meras exibições de sentimentos ou falsas demonstrações de espontaneidade ou qualquer outra coisa a que pudéssemos chamar depreciativamente uma encenação teatral. O paralelo entre o palco e a conversação é muito mais profundo do que isso. A questão é que, ordinariamente, quando um indivíduo diz alguma coisa, não a diz como uma declaração franca e desassombrada de um fato baseado em sua própria convicção e em seu nome pessoal. Ele está simplesmente recitando. Percorre toda uma faixa de eventos já determinados, para encantar ou cativar os seus ouvintes".

Tal como acontece com o actor no palco, o indivíduo representa diferentes personagens, dependendo do papel de interacção. O desempenho é, assim, a actividade de um indivíduo num dado momento, com o efeito de influenciar os outros, que se traduzem na audiência. Assim sendo, existe o actor e o personagem, sendo que o ouvinte está disposto a envolver-se na caracterização que lhe é apresentada. O indivíduo como actor traduz-se no fabricante das impressões incluídas na tarefa de encenação de um desempenho. Por sua vez, a personagem é a figura evocada pelo desempenho. O indivíduo tem, assim, a capacidade de aprendizagem, no sentido de preparar-se para o papel a representar. Segundo Goffman (1959), o eu é determinado por estas dramatizações. Para o autor (1959), “o eu (…) é um efeito de ordem dramatúrgica que resulta difusamente de uma cena representada, e a questão decisiva que se põe a seu respeito, o seu problema essencial é o de ser ou não acreditado”.

Segundo Miller (1995), um dos aspectos que os indivíduos têm de ter em conta nas suas interacções com os outros é apresentar-se como alguém aceitável: “(…) as próprias obrigações e vantagem de nos mostrarmos sempre a uma luz moralmente correcta, de nos apresentarmos sempre como personagens socialmente correctas, forçam-nos a sermos o tipo de pessoa que as exigências do palco definem” (Goffman, 1959). A preparação nos bastidores pode ajudar a uma apresentação eficaz em palco. Goffman (1959) defende que o embaraço é um importante indicador da falha dos indivíduos, aquando da sua apresentação como uma pessoa aceitável e um importante motivo para a eficácia da auto-apresentação. O indivíduo tem como objectivo auto-apresentar-se de forma eficaz, para evitar falhanços ou embaraços. O eu é apresentado com o propósito de interagir com o outro e é desenvolvido e mantido com a cooperação dos outros indivíduos, durante a interacção. Através da revisão da literatura, foi possível identificar algumas dimensões do eu que importam salientar.

Segundo Zhao et al. (2008), os indivíduos que não cumprem diariamente com as normas sociais estabelecidas são punidos e as “máscaras” que utilizam diariamente transformam-se no seu “eu real” (real self), sendo que o seu “verdadeiro eu” (true self) fica suprimido (hidden self). Num contexto on-line anónimo, onde existe uma falta de responsabilização, as máscaras que os indivíduos utilizam diariamente são retiradas e o seu “verdadeiro eu” é, na maior parte das vezes, mostrado, assim como as outras identidade suprimidas.

Já Higgins (como citado por Ellison et al., 2006) define três domínios do eu: o "eu actual" (actual self), diz respeito aos atributos que um indivíduo possui; o "eu ideal" (ideal self), referente aos atributos que um indivíduo idealmente poderá possuir e o "eu do dever" (ought self), com base nos atributos que um indivíduo deveria possuir.

Zhao et al. (2008) define, ainda, as dimensões do eu com base na percepção que o indivíduo tem de si: o “eu de agora” (now self) e o “possível eu” (possible self). O “eu de agora” estabelece identidades conhecidas pelos outros, enquanto o “possível eu” é uma imagem do indivíduo que normalmente não é do conhecimento dos outros. O “eu possível esperado” (hoped-for possible self) é uma sub-categoria do “possível eu” que difere do “eu real escondido” (hidden true self) e do “eu ideal” (ideal self), visto o indivíduo desejar estabelecer uma identidade e acreditar que é possível fazê-lo nas condições apropriadas.

Goffman distingue, ainda, informação fornecida de forma controlada (given) e de forma não controlada (given off) (como citado por Miller, 1995). A informação fornecida de forma controlada diz respeito à informação planeada, sendo que a informação não controlada é fornecida sem intenção. A auto-apresentação é uma questão de gestão de impressões, em que o indivíduo influencia a definição da situação, projectando uma determinada impressão. Visto todos os indivíduos projectarem uma imagem numa determinada situação, esta acaba por ser definida globalmente, de uma forma bastante unificada. Nesse sentido, ocorre uma pressão moral no sentido de manter a situação. Não é suposto que a imagem estabelecida inicialmente seja contradita. “A projecção inicial do indivíduo compromete-o com o que ele está a propor ser e exige dele que ponha de lado todas as suas pretensões de ser outras coisas” (Goffman, 1959). A organização da sociedade baseia-se neste princípio.

Importa, porém, salientar que o autor (1959) conclui no seu estudo que o quadro por ele apresentado não é independente de características e especificidades culturais. Segundo Goffman (1959), as regras de dramatização e as predisposições globais de governo de acção da sociedade ocidental “(..) não devem fazer-nos esquecer os aspectos das outras sociedades onde se observam regras manifestamente diferentes”. Para além disso, é necessária cautela quanto à caracterização da sociedade ocidental como uma unidade global relativamente a práticas dramatúrgicas. Como já foi anteriormente referido, após o surgimento da Internet apareceram novos ambientes onde o indivíduo poderia marcar a sua presença. Desde os sites pessoais até às redes sociais, passando pelos MUDs, teóricos e investigadores sentiram necessidade de analisar as teorias de auto-apresentação previamente estabelecidas nos novos ambientes de Comunicação Mediada por Computador, à luz das especificidades e particularidades dos mesmos.

A apresentação on-line do eu

Zarghooni (2007) introduz a auto-apresentação on-line da seguinte forma: “The self-presenters are the same people as before, but they have got a new self-presentational tool and a new arena for social interaction”.

A auto-apresentação on-line apresenta, assim, especificidades que serão retratadas nesta secção. No entanto, a própria auto-apresentação na Web varia de acordo com as características específicas de cada ambiente: "Just as in offline environments, the degree to which we employ cognitive choice and intentionality in the way we present ourselves may vary between specific contexts" (Strano, 2008). Esta questão tem sido estudada desde o surgimento da Internet.

Pearson (2009) defende que, no contexto off-line, a separação entre palco e bastidores é caracterizada por uma barreira física (porta, muro, etc). No entanto, no contexto on-line, o actor e a audiência encarnam-se electronicamente através de signos que escolhem para a sua representação, moldados pela arquitectura da plataforma que utilizam. Não existe, portanto, contacto físico entre os comunicadores. Os utilizadores manipulam os códigos comunicacionais, com vários graus de destreza, com o objectivo de criar não apenas "eus" on-line mas também o palco onde estes "eus" actuam. No contexto on-line, existe uma indefinição entre o palco e os bastidores: o que se sente como um espaço íntimo pode estar sob o olhar vigilante de uma grande plateia desconhecida e o que está a ser encenado como uma performance de palco pode não ter testemunhas. Zarghooni (2007) aplica esta teoria ao Facebook: “(…) the profile (home-)page would be the front area, whereas dyadic interaction (most notably the e-mail-like messages that are sent between users) and the physical person typing on the keyboard and editing his profile could be examples of backstage behaviour”. Miller (1995) tentou compreender, ainda em 1995, ano em que a Internet começou a dar provas de que alteraria o mundo para sempre, a questão da auto-apresentação nos sites pessoais. Segundo o autor (1995), estes ambientes permitiam uma melhor auto-apresentação que o e-mail, apesar de serem, na altura, menos interactivos. Os seus criadores podiam apresentar fotografias, gráficos, interesses, contactos, etc. Os sites pessoais possibilitavam, segundo Miller (1995), um locus para o “eu electrónico”, mais favorável que o e-mail, visto os sites serem criados de forma mais cuidada e possibilitarem uma menor interacção. As limitações da utilização de sites pessoais para a auto-apresentação podiam fomentar a liberdade do utilizador, visto minimizarem a possibilidade de embaraço. Os outros utilizadores podiam ter uma opinião desfavorável quanto ao site pessoal, embora fosse pouco provável que o seu criador viesse a ter esta noção. Em 1995, a linguagem HTML ainda estava pouco evoluída, sendo que, apesar de poderem ser disponibilizadas várias imagens, os destinatários podiam não ter um sistema que permitisse receber este tipo de informação. O mesmo se aplica ao vídeo e ao som. Neste sentido, o formato mais fiável para a transmissão de informação era o texto. Para o autor (1995), o contexto onde se inseria o acesso a um determinado site afectava a forma como o seu conteúdo era percepcionado. Se o criador do mesmo soubesse qual o contexto em que os utilizadores acediam ao seu site seria possível controlar a sua auto-apresentação de forma mais eficaz.

Também Turkle (1997) retratava os sites pessoais como formas de auto-apresentação na Web, realçando que “On the Web, the idiom for constructing a ‘home’ identity is to assemble a ‘home page’ of virtual objects that correspond to one’s interests. One constructs a home page by composing or ‘pasting’ on it words, images, and sounds, and by making connections between it and other sites on the Internet (…)”.

Miller (1995) analisou vários sites pessoais, tendo criado, posteriormente, uma série de categorias para a tipologia da auto-apresentação por ele observada nos mesmos:

1) Individual: O objectivo da página era puramente a auto-apresentação (como sou, de onde sou, o que estudo, minhas bandas/livros/etc preferidos...);

2) Individual como membro de uma organização: como por exemplo o espaço pessoal de um aluno, na página da universidade onde estuda;

3) Sites de grupo: como por exemplo a família;

4) Página de interesses: informação sobre o principal interesse do criador da página, com a inclusão de links para outros sites sobre o mesmo tema;

5) Promoção pessoal;

5.1.) Auto-promoção;

5.2.) Curriculum Vitae;

5.3.) Promoção de serviços pessoais.

Já naquela altura, Miller (1995) previa: "Contrariwise, much of the depth and richness that we can think of adding would be to make EC more like face-to-face interaction, which might suggest that electronic selves could be developed in a different social context (continuing the extension of the social world from the hamlet to the city to the global village) but that many of the basic issues, moves and processes that go on would be the same as they always were".

As conclusões retiradas pelo autor (1995) diziam respeito a ambientes muito pouco interactivos, com pouca possibilidade dos seus visitantes fornecerem feedback facilmente. Com o passar do tempo, ambientes mais propícios à Comunicação Mediada por Computador foram surgindo.

Os estudos com enfoque na construção da identidade on-line em ambientes anónimos, como os chats, concluíam que alguns indivíduos tinham tendência para falsificar as suas identidades e agir sob impulsos negativos neste tipo de ambientes. O facto de serem ambientes anónimos tornava possível para o indivíduo reinventar-se e produzir novas identidades, diferentes da sua identidade off-line. Para além disso, a falta de demonstrações da aparência promovia o desaparecimento de estigmas nestes ambientes, facilitando a criação das identidades desejadas, o que por vezes não é possível nas interacções off-line (Zhao, 2008).

Turkle (1997) é considerada uma das pioneiras no estudo da relação dos indivíduos com o computador, assim como da criação de identidades on-line. No seu livro “Life on the screen: Identity in the age of the Internet”, a autora (1997) analisa a criação de identidades on-line, com enfoque para os MUDs (Multi-User Dungeon, Dimension ou, por vezes, Domain). Os MUDs são role-playing games para multi-utilizadores, onde os jogadores assumem o papel de uma ou várias personagens, interagindo com outros jogadores. Os MUDs são, assim, ambientes anónimos on-line, que se traduzem em espaços virtuais com diversas personagens, que originam novas formas de comunidade e que criam colaborativamente narrativas on-line (Turkle, 1997). Na altura em que redigiu o seu trabalho nesta área, Turkle (1997) já via a Internet como uma nova oportunidade para os indivíduos construírem comunidades com novas características: “We have the opportunity to build new kinds of communities, virtual communities, in which we participate with people from all over the world, people with whom we converse daily, people with whom we may gave fairly intimate relationships but whom we may never physically meet”. Para a autora (1997), este tipo de plataformas é um exemplo de como a Comunicação Mediada por Computador pode simbolizar um espaço de construção e reconstrução da identidade.

“The anonimity of MUDs – one is on the MUD only by the name of one’s character or characters – gives people the chance to express multiple and often unexplored aspects of the self, to play with their identity and to try out new ones. (…) Identity, after all, refers to the sameness between two qualities, in this case between a person and his or her persona. But in MUDs, one can be many” (Turkle, 1997). Neste sentido, a Internet é um laboratório social para experiências quanto à construção e reconstrução do eu, o que, segundo a autora (1997), caracteriza a vida pós-moderna. No entanto, se os utilizadores escolherem representar um papel idêntico ao que desempenham no contexto off-line, os MUDs, e a própria Internet, torna-se uma extensão da “vida real”. Estes ambientes virtuais podem, também, ser utilizados para que o indivíduo descubra a sua verdadeira identidade, disponibilizando espaços virtuais onde os indivíduos podem expressar partes do eu inexploradas (Turkle, 1997). Muitas das vezes, as personagens têm características que o utilizador está a tentar desenvolver em si no contexto off-line. O facto de cada jogador nos MUDs poder criar vários personagens e participar em vários jogos faz com que o eu seja descentralizado e possa ser multiplicado sem limites. “(…) MUDs blur the boundaries between self and game, self and role, self and simulation” (Turkle, 1997).

Apesar de os MUDs funcionarem como uma projecção de fantasia, potenciando uma fácil intimidade e relações mais facilmente abertas, o indivíduo continua a desejar uma experiência do eu autêntica. As experiências em espaços virtuais fazem com que os indivíduos tenham em atenção o que dão como garantido na “vida real” (Turkle, 1997).

Nos MUDS, os utilizadores podem comunicar uns com os outros, ou numa janela comum ou numa janela privada, onde apenas os utilizadores que comunicam directamente estão presentes. Este processo de comunicação é equiparado ao que acontece nos chats, sendo que, na altura em que este trabalho de Turkle (1997) foi realizado, o mais utilizado era o Internet Relay Chat, mais conhecido por IRC, a sua sigla. Para a autora (1997), as janelas comuns fazem com que seja fornecida uma impressão a todos os utilizadores do MUD, através forma como os utilizadores se descrevem ou se comportam. No entanto, as auto-transformações são facilitadas neste tipo de plataformas, visto o utilizador ter possibilidade de rever a sua auto-descrição quando desejar. Ao contrário do que acontece com a televisão, onde os espectadores são passivos, nos MUDs um utilizador é o autor da sua história e de uma história construída colaborativamente. Os MUDs são, assim, das primeiras plataformas interactivas a surgir na era digital (Turkle, 1997).

Mais recentemente, surgiram estudos dedicados ao estudo da auto-apresentação em ambientes menos anónimos, tais como os sites de encontros. Segundo Ellison et al. (2006), ao contrário de algumas plataformas de comunicação on-line, principalmente dos ambientes anónimos que prevaleciam antes das redes sociais, os sites de encontro, como uma antecipação de uma interacção presencial, diminuem a sensação do anonimato visual postulado. Os utilizadores deste tipo de sites revelam-se, assim, mais abertos, realistas e, provavelmente, mais autênticos.

Muitos dos participantes no estudo de Ellison et al. (2006) referem-se, directa ou indirectamente, ao facto de terem em atenção os pormenores subtis, quase ao minuto, transmitidos nas mensagens dos outros utilizadores e na criação das suas próprias mensagens. Habilidades como escrever bem são entendidas como não controláveis ("given off", na teoria de Goffman). Os utilizadores normalmente criam os seus perfis tendo em conta os seus desejos em relação ao companheiro que procuram. As características que têm em atenção nos perfis dos outros utilizadores reflectem-se nos seus próprios perfis. "Profile photographs communicated not only what people looked like (or claimed to look like), but also indicated the qualities they felt were important" (Ellison et al., 2006).

Segundo os mesmos autores (2006), nos sites de encontros existe uma tendência para projectar um eu atraente, bem sucedido e desejável. Os indivíduos que utilizam estes sites assumem ser desonestos por vezes, mas apenas para tentar ser atraentes e fazer com que os outros gostem deles. Assumem, também, que muitos dos utilizadores não mentem com intenções negativas, utilizando apenas o site para escrever e projectar a pessoa que gostariam de ser, o seu eu idealizado, como se fosse uma realidade. Esta projecção do eu ideal pode influenciar o eu real, visto a interacção no site anteceder uma interacção presencial e o indivíduo necessitar de equilibrar o que retratou com a realidade. Existe também neste tipo de plataformas uma necessidade de estar em conformidade com as normas sociais estabelecidas (Ellison et al., 2006). Um dos entrevistados no estudo dos autores (2006) retrata uma situação pertinente em relação à idade: "(...)If I don't cheat that makes me seem twice as old. So if I say I am 44, people think that I am 48. It blows". A plataforma analisada possui um sistema de filtros para pesquisa, o que também influencia a auto-apresentação dos seus utilizadores.

O facto dos sites de encontros serem um pressuposto de um encontro off-line faz com que os indivíduos tenham de equilibrar o seu desejo pela auto-promoção com a sua necessidade de uma auto-apresentação honesta. Tendo em conta este facto, a auto-apresentação em sites de encontros é definida por características que os diferenciam das redes sociais, apesar de na maior parte das vezes serem plataformas que seguem a mesma arquitectura.

Os ambientes on-line elevam a construção de performances a outro nível. As redes sociais caracterizam-se pelo seu carácter descarnado, mediado e controlável, através das quais performances alternativas podem ser disponibilizadas ao outro (Pearson, 2009). No entanto, Blumer (2010) relembra que apesar da comunicação nas redes sociais on-line ter como base um grande número de modos adicionais, comparativamente a alguns dos outros serviços de comunicação na Internet, o número de canais continua a ser reduzido, em comparação com a comunicação face-a-face: “(…) users are often able to gother a lot of information about others (profile texts, pictures, number of friends, etc.) without even having contacted them or asked permission for it”. Zarghooni (2007) acrescenta: “On Facebook, the friends (i.e. the audience) are partly ‘blindfolded’ – they cannot see the person behind the screen and therefore this person does not feel as much anxiety as he or she would have felt in a face-to-face interaction". Uma limitação adicional em relação à controlabilidade está relacionada com o risco de outros utilizadores divulgarem informações sobre o indivíduo através, por exemplo, de comentários no mural do mesmo. Nas redes sociais on-line existe uma maior dificuldade para criar perfis falsos, visto estas plataformas terem como base o sistema dos "amigos". É possível que um utilizador seja encontrado ou tenha como amigo alguém que conhece no contexto off-line, o que poderá originar dúvidas sobre o perfil (Utz, 2010). Desta forma, segundo Zarghooni (2007), os amigos nas redes sociais on-line têm como função validar a auto-apresentação do dono do perfil.

Pearson (2009) introduz o conceito de "quarto de vidro" (“glass bedroom”), com o objectivo de descrever um quarto com paredes feitas de vidro, no qual ocorrem conversas privadas e trocas íntimas, sendo que cada contacto se situa em diferentes níveis de consciência, de que amigos distantes e estranhos movem-se entre as paredes transparentes que separam grupos com performances com diferentes graus de construção e manipulação. O quarto de vidro em si não é um espaço totalmente privado, nem um verdadeiro espaço de bastidores verdadeiro, como Goffman articula, embora ele assuma elementos de ambos os espaços (palco e bastidores). É uma ponte que é parcialmente privada e pública, construída on-line através de sinais e linguagem. Este conceito é uma construção metafórica, utilizada para descrever a performance on-line dos utilizadores, que se situa entre a esfera do público e do privado. Esta linha ténue que separa o palco e os bastidores e o público e o privado, no contexto on-line, tem implicações na criação de relações sociais na Web. Pode, no entanto, afirmar-se que existe uma separação on-line entre espaço público e privado, nomeadamente através da existência de espaços a que só é possível aceder através de uma senha secreta, equivalentes electrónicos aos muros e paredes. Segundo Zarghooni (2007), “This is perhaps the clearest border between back and front areas as regards Facebook. A person who is editing a Facebook profile is in two places at the same time. While the presented self is seen by others who look at the user’s profile, the ‘real’ person is the physical human sitting behind the computer screen”. Um conceito difundido por Zhao et al. (2008) serve para expressar aquela que pode ser considerada uma das mais interessantes alterações das redes sociais, quanto aos ambientes anónimos e aos sites de encontros, que consiste num novo tipo de interacção entre indivíduos promovida on-line: as relações ancoradas (“anchored relationships”). Este tipo de relações estabelecem-se on-line, mas baseiam-se nos conhecimentos off-line do indivíduo (com a família, amigos, colegas de trabalho, etc). Apesar desta ideia, Zhao et al. (2008) concluiram no seu estudo que os utilizadores estão também interessados em utilizar as redes sociais para apresentar-se a uma audiência para além dos seus conhecidos, familiares e amigos.

O sociólogo americano Granovetter (1973) ficou conhecido pelo seu trabalho relativo às redes sociais, nomeadamente no que toca à disseminação da informação nessas redes através do que o autor (1973) denominou de “laços fracos”. Segundo Granovetter (1973), os "laços fortes" designam elevados níveis de envolvimento emocional, intimidade e reciprocidade (família e amigos). Por outro lado, os "laços fracos" ligam amigos distantes ou colegas de trabalho, por exemplo. Neste contexto, pode falar-se, ainda, de "laços latentes", conceito utilizado para identificar as ligações que são tecnicamente possíveis dentro de estruturas de rede existentes, mas que ainda precisam de ser activadas. Dependendo do nível de envolvimento, que pode ser passivo (observação) ou activo (comunicação bilateral ou performance recíproca), um laço latente pode ser transformado num laço fraco ou, com o passar do tempo, num laço forte. Na sua teoria dos laços fortes e dos laços fracos, Granovetter (1973) defende que as redes sociais, maioritariamente compostas por laços fracos, têm tendência a abrir-se mais ao exterior, comparativamente com as redes compostas por laços fracos. Para além disso, os indivíduos próximos que se vêem com mais frequência têm menos informação a partilhar entre si do que os conhecidos, que estão juntos esporadicamente. Neste sentido, a força dos laços fracos reside no facto destes lançarem “pontes locais” entre actores que de outro modo estariam isolados.

Pearson (2009) considera que o estudo dos conceitos inerentes aos laços sociais pode ser útil para compreender a discrepância entre palco e bastidores, esfera pública e privada, no contexto on-line. Os tipos de laços deverão ser tidos em conta separadamente, com vista a uma análise sobre a forma como os mesmos contribuem para a construção das redes sociais e de uma identidade construída de uma forma mediada.

Segundo o mesmo autor (2009), no contexto on-line, em particular nas redes sociais (plataformas de performance virtuais), os comportamentos performativos que utilizam laços fortes manifestam-se de três formas:

1) Privacidade acessível (accessible privacy): a quantidade de informação é gerida pelo actor, que pode querer abrir a porta a aspectos particulares ou íntimos da sua construção de identidade. Esta partilha pode assumir a forma de apresentações recíprocas entre plataformas ou pode tomar a forma de performances mais exibicionistas, que são apenas decifráveis para aqueles com uma relação de laços fortes. Segundo Zhao et al. (2008), o facto de o utilizador poder controlar as suas configurações de privacidade permite que estabeleça o seu palco e os seus bastidores, seleccionando que informação quer disponibilizar a determinados grupos de indivíduos. Esta característica, uma das responsáveis pela crescente popularidade do Facebook, pode marcar uma diferença no que concerne à auto-apresentação nestas plataformas com a auto-apresentação em contexto off-line. Neste sentido, 72.1% dos inquiridos admite que apenas os utilizadores que compõem a sua rede de amigos pode aceder ao seu perfil (LINI, 2010). No entanto, Blumer (2010) defende que o anonimato intencional vai contra a ideia base das redes sociais on-line: representar e transferir as relações off-line para a Internet e construir novas relações on-line que são, por vezes, estendidas ao contexto off-line. No entanto, “On Professional and career-related sites like LinkedIn or Xing, it is certain that no one would use a pseudonym, while on Facebook and other more ‘private’ SNSs it is quite common to use fake names ou nicknames” (Blumer, 2010).

2) Intimidade mediada (mediated intimacy): precisamente porque este espaço de actuação é mediado através de sinais - tradicionalmente, texto escrito, mas agora cada vez mais gráficos e áudio - é criado um espaço de intimidade mediada. Esta característica facilita a manutenção do vínculo ou uma troca de informações.

3) Experiência (try out): os indivíduos “experimentam” o envolvimento emocional e a intimidade antes de dedicarem total e maciçamente os recursos sociais e pessoais para a criação de fortes laços. Os indivíduos podem experimentar quase sem risco.

Apesar destas formas de demonstração dos comportamentos em contexto on-line, as apresentações neste tipo de plataformas fornecem uma forma útil de manter de forma mais eficaz diversas redes de laços fracos (Pearson, 2009). Os utilizadores têm a possibilidade de "olhar" ou "não olhar" para um desempenho, incorporar signos e alegorias de outros espectáculos para os seus próprios, como entenderem ou até mesmo de executar ou retirar-se como quiserem. Estas escolhas podem levar a que laços fracos se tornem fortes, com o aumento da intimidade ao longo do tempo. Os laços fracos mais distantes podem, também, ser facilmente mantidos. Os laços fracos requerem menos investimento em termos de emoção, informação ou tempo. Esta redução de investimento faz com que o falhanço de uma nova identidade envolva um corte rápido com os laços fracos.

Dados do LINI (2010) indicam que 78.4% dos utilizadores portugueses declararam ter maioritariamente pessoas de conhecimento pessoal na sua lista de “amigos” on-line. Os utilizadores masculinos apresentam uma percentagem maior de utilizadores que compõem a sua rede social, que não conhecem pessoalmente. Por sua vez, as principais razões que levam os utilizadores portugueses a aderir a redes sociais on-line estão relacionadas com a necessidade de manter contacto com pessoas que estão longe (87.6%), com o facto de a maior parte das pessoas que conhecem estar registada (84.1%), para poder partilhar conteúdos e pensamentos (83.8%) e para fortalecer os laços sociais off-line (80%). É de salientar que o receio de exclusão é menos relevante para as duas faixas etárias mais avançadas (45 – 54 e 55 ou mais).

Zhao et al. (2008) concluiu que os indivíduos utilizam diferentes estratégias na construção da identidade no Facebook, que vão desde o mais implícito ao mais explícito. O “eu visual” (“visual self”) pressupõe a publicação de um grande número de fotografias e foi a estratégia mais analisada pelos autores (2008). Já o “eu cultural” (“cultural self”) diz respeito à publicação de inúmeras preferências e à utilização acrescida da funcionalidade de votação (“gosto”) no Facebook. Estas enumerações culturais transformam-se, assim, em auto-descrições. Por fim, o “eu narrativo” (“narrative self”) está relacionado com a descrição do utilizador na secção “Sobre mim” do perfil. Esta é, segundo a observação de Zhao et al. (2008), a estratégia menos utilizada.

Tal como acontece nos sites de encontros, os utilizadores do Facebook têm uma tendência para projectar uma identidade socialmente desejada (Zhao et al., 2008). Nos ambientes on-line não-anónimos, os indivíduos apresentam-se em linha com as expectativas sociais, podendo ser responsabilizados se não o fizerem. Para além disso, a maioria das fotografias são de grupo, o que demonstra um esforço para construir uma “identidade orientada para o grupo” (“group-oriented identity”). “(…) the impression management in the online worlds varies according to the expectations of the reference group at hand. (…) The virtual selves exhibited on the photos of SNS are therefore constantly constructed and re-constructed based on the values associated with the ‘ideal self’ or ‘the ought self’” (Siibak, 2010). Segundo Strano (2008), as mulheres tendem, mais do que os homens, a construir uma identidade de grupo através das fotografias que publicam no Facebook, deixando-se fotografar com amigos e disponibilizando fotografias de ocasiões especiais.

O Facebook parece promover uma cultura onde a identidade de grupo é enfatizada. Os visitantes de um determinado perfil percebem que o seu detentor é popular, sexy, atractivo e confiante se tiver um elevado número de "amigos", o que indica que a quantidade de membros de um determinado grupo, a que um determinado utilizador pertence, pode ser utilizado como mecanismo de gestão de impressões (Strano, 2008). A opinião dos outros utilizadores influencia, assim, a frequência com que os utilizadores alteram, por exemplo, a sua foto de perfil (Strano, 2008).

Boyd & Ellison (2007) defendem que o conceito central "identidade", que diz respeito à forma como o utilizador desenvolve os seus perfis on-line e a sua lista de amigos, obedece a quatro passos fundamentais:

1) Gestão de impressões: os utilizadores definem as suas próprias identidades através da informação que disponibilizam nos seus perfis e através da forma como configuram a sua privacidade on-line, o que influenciará os sinais de identidade enviados aos outros utilizadores.

2) Gestão de amizades: a análise do perfil dos outros utilizadores, para escolher se os mesmos são incluídos ou não na rede de amigos do indivíduo, mostra a procura de marcadores de identidade com o objectivo de estabelecer uma interacção social.

3) Estrutura da rede social: o papel que os utilizadores desempenham na comunidade social em que participam. Alguns serão muito passivos e terão uma rede pessoal muito restrita, enquanto outros serão muito activos no que toca à publicação de conteúdo e informação. Outros terão ainda um papel fundamental na criação de grupos.

4) Ponte entre o contexto on-line e off-line: diz respeito ao nível de integração das redes sociais on-line com a vida do indivíduo, em contexto off-line.

Alguns dos investigadores analisados têm-se dedicado especificamente ao estudo das diferenças e similaridades da auto-apresentação no contexto off-line e no contexto on-line, nomeadamente através da análise de como uma e outra se influenciam mutuamente. Kosanovic (como citado por Zarghooni, 2007) afirma que: “There seems to be an agreement that our offline identity affects our online identity. However, with the exchange of culture and identity on the Internet, and especially on social networking sites, it is quite possible that online self-presentation affects offline identity formation”.

Em termos gerais, pode dizer-se que existe uma tendência para o contexto on-line ser propenso a uma maior ocorrência de alguns desvios de comportamento, tendo em conta as normas socialmente aceites no contexto off-line (Zhao et al., 2008). O Facebook pode encorajar o surgimento dos “eus” escondidos, sendo que, na maioria das vezes, os indivíduos tentam agir em conformidade com o desejo de se tornarem populares. No entanto, segundo os mesmos autores (2008), as demonstrações de interesse por indivíduos do mesmo sexo, por exemplo, são raras. A análise efectuada pelo autor demonstrou que, apesar de nas entrevistas presenciais dois estudantes terem admitido a sua bissexualidade, não havia qualquer indício desse facto nos seus perfis do Facebook. Existe, portanto, uma forte influência das normas socialmente aceites também no Facebook. Zhao et al. (2008) defende ainda que o eu possível esperado, projectado no Facebook, não é o eu verdadeiro projectado nos ambientes on-line anónimos, nem o eu real apresentado nas relações estabelecidas pessoalmente. A auto-apresentação do eu no Facebook parece representar a identidade que o indivíduo aspira apresentar off-line, mas que ainda não teve oportunidade de fazer, por qualquer razão. O facto de o eu possível esperado ser uma identidade que o indivíduo espera que seja socialmente desejável não significa que não seja o seu eu verdadeiro. Apesar de não ser demonstrado no contexto off-line, poderá ter um verdadeiro impacto no indivíduo. A identidade é o que nós convencemos o outro a pensar sobre nós, não interessando se este processo se desenrola off-line ou on-line ou se é anti-normativo ou socialmente desejado.

Os autores (2008) concluem, assim, que o contexto on-line e o contexto off-line não são dois mundos separados e o que indivíduo faz on-line pode trazer consequências para a sua vida off-line. A Internet, porém, fomenta novas oportunidades para a construção de identidades, o que pode ser usado para ultrapassar barreiras impostas no mundo off-line.

Back et al. (2010) testaram duas hipóteses: as redes sociais servem para comunicar personalidades idealizadas pelos indivíduos (“idealized virtual-identity hypothesis”) (comunicação de personalidades idealizadas nas redes sociais) ou as redes sociais assumem-se como uma extensão da personalidade do contexto off-line (“extended real-life hypothesis”). Os autores (2010) concluíram que estas plataformas se assumem como uma extensão da personalidade real dos utilizadores. Segundo Zhao et al. (2008), nos sites de encontros, porém, há uma tendência para coordenar a identidade on-line com a identidade off-line. No entanto, por outro lado, há uma tendência para demonstrações de identidade (“identity statements”) que normalmente não acontecem no contexto off-line. Como já foi referido anteriormente, é importante ter em conta que os resultados dos estudos, com enfoque na auto-apresentação on-line em sites de encontros, não poderem ser generalizados, visto estes serem orientados para o estabelecimento de relações amorosas off-line, o que afecta a forma como os indivíduos se apresentam.

Já Zywica & Danowski (2008) observaram que a maioria dos utilizadores afirma não revelar mais sobre si na Internet do que no contexto off-line, não revelar mais lados da sua personalidade aos seus "amigos" on-line do que aos seus "amigos" off-line e que a sua família não ficaria surpresa se visse o seu perfil do Facebook. Neste caso, os utilizadores considerados populares têm mais tendência a afirmar que as suas famílias não ficariam surpreendidas, sendo que alguns utilizadores considerados impopulares afirmam que as fotografias poderiam ser surpreendentes, visto mostrarem-nos a festejar, a beber, entre outros aspectos. Para além disso, uma elevada percentagem de utilizadores inquiridos com baixa auto-estima revela mais informação sobre si on-line; confessa que existem aspectos que os seus amigos da Internet sabem que não podem partilhar com os seus amigos do contexto off-line; expressa mais das suas facetas on-line; exagera informação e admite já ter feito algo para parecer popular no Facebook. Alguns utilizadores com baixa auto-estima podem sentir-se mais confortáveis para expressar o seu verdadeiro eu on-line do que off-line.

Nos estudos dedicados à análise da influência mútua dos ambientes on-line no contexto off-line, a questão da popularidade tem sido amplamente estudada, principalmente entre os utilizadores mais jovens. Neste sentido, o artigo de Zywica & Danowski (2008) tem como objectivo testar duas hipóteses retiradas da revisão da literatura:

1) A hipótese do Realce Social ("Social Enhancement"), que prevê que a popularidade off-line aumente a popularidade on-line;

2) A hipótese da Compensação Social ("Social Compensation"), que prevê que a popularidade on-line seja utilizada para compensar a falta de popularidade off-line.

Os autores (2008) definem a popularidade on-line, mais especificamente no Facebook, de duas formas: através dos indicadores de status, como o número de amigos e o tamanho do mural do utilizador, e a utilização de técnicas virtuais de etnologia, como a definição dos utilizadores, com diferentes níveis de auto-estima e sociabilidade. No entanto, levanta-se uma questão: o que significa ser popular no Facebook e no contexto off-line?

Alguns estudos indicam que a popularidade está relacionada com alta atractividade, características de liderança, humor, extroversão, descobertas académicas e favor dos professores. Para além disso, o sexo e o género influenciam as questões da popularidade (Zywica & Danowski, 2008). Gordon (como citado por Zywica & Danowski, 2008) utiliza o termo "Queen Role" para estabelecer características que são pertinentes para a popularidade entre o género feminino, principalmente nas adolescentes e jovens. Segundo Gordon (como citado por Zywica & Danowski, 2008), características como beleza, vestuário aprovado, carácter moral, personalidade democrática, desempenho escolar, exercício da influência e serviço escolar influenciam a popularidade, nomeadamente entre o grupo estabelecido anteriormente. Os indivíduos mais novos tendem, assim, a preocupar-se mais com a sua popularidade on-line que os utilizadores adultos (Zywica & Danowski, 2008).

Apropriando-se das características enumeradas por Gordon, Zywica & Danowski (2008) defendem que os utilizadores do Facebook podem ter a percepção das mesmas, através da informação de perfil, que inclui o número de amigos e galeria de fotografias. Por sua vez, o desempenho pode também ser interpretado através da análise da experiência profissional, formação académica, actividades extracurriculares, prémios, entre outros aspectos.

Evans et al. (2006) analisam a eficiência dos vários elementos presentes nos perfis dos utilizadores, nas redes sociais on-line, no processo de fornecimento de informação quanto à sua personalidade. A investigação tem como base analisar o grau de equivalência entre a percepção de si e a percepção que o outro tem do indivíduo. O objectivo era, portanto, perceber que capacidade o utilizador tem de fornecer com sucesso informação sobre si mesmo no sentido de alcançar a denominada “concordância de impressões” (impression agreement). Neste sentido, foram criados dois contextos de recolha de dados, onde os outros utilizadores atribuem um valor aos vários elementos que constam do perfil do utilizador que visitam: uma rede social (YouJustGetMe.com) e uma aplicação do Facebook. Os participantes, maioritariamente estudantes, foram convidados a publicar nos seus perfis uma fotografia, preenchendo, em seguida, 33 campos pré-definidos onde dariam “pistas” sobre a sua personalidade. Nenhum dos campos era obrigatório e os utilizadores podiam disponibilizar apenas as informações que desejassem. Os participantes que visitassem o perfil de outros utilizadores eram, posteriormente, convidados a preencher, também eles, uma lista com uma série de questões com o objectivo de demonstrar que opiniões tinham obtido do utilizador dono do perfil visitado. Na altura da análise dos dados, um total de 5.754 utilizadores tinha utilizado esta aplicação. No entanto, foram apenas analisados os dados relativos a participantes com mais de 18 anos, num total de 5.216 perfis. Os resultados mostram que a os donos do perfil são normalmente vistos pelos outros da mesma forma que se vêem a si mesmos e que a concordância é promovida por itens do perfil mais profundos, tais como os valores, identidade, etc. No entanto, os autores (2008) realçam que a consonância das impressões diverge de contexto para contexto, podendo estar associada às diferenças existentes entre a auto-apresentação no contexto off-line e no contexto on-line. Segundo o LINI (2010), as informações que os utilizadores portugueses mais disponibilizam nos perfis das redes sociais on-line em que se encontram registados, são o nome (95.6%), a data de nascimento (78.4%) e a fotografia pessoal (73,7%), resultados que seriam de esperar, consistindo na identificação mais básica permitida por este tipo de plataformas. A informação referente aos interesses do indivíduo encontra-se em quinto lugar com 71.7%, logo depois da localidade, com 71.1%.

Os utilizadores com 55 anos ou mais são os que menos divulgam informação no seu perfil on-line. A informação mais divulgada por esta faixa etária é o nome (88.2%) e em seguida os interesses (64.7%), ao contrário do que acontece com os escalões mais jovens, onde a segunda informação mais divulgada é a data de nascimento. Já nos escalões intermédios (35 – 44 e 45 – 54) o dado pessoal mais divulgado a seguir ao nome é a localidade.

Ainda relativamente à questão da concordância de impressões, Siibak (2010) conclui que boa aparência, sensualidade e consciência das últimas tendências da moda são considerados importantes para causar uma boa impressão entre os jovens entre os 11 e os 18 anos. Segundo Utz (2010), os indivíduos combinam vários factores, na maior parte das vezes pequenos pormenores, quando fazem juízos sobre o utilizador dono do perfil que observam.

Ellison et al. (2006) analisa a forma como os participantes gerem a sua auto-apresentação on-line em sites para encontros, com o objectivo de encontrar um companheiro, através da análise de conteúdo de entrevistas realizadas a 349 utilizadores do Connect.com. No seu artigo, os autores (2006) introduzem um novo conceito quanto à diferença entre a auto-percepção e a percepção do outro sobre o indivíduo: o “espelho nebuloso” (do inglês foggy mirror). Ellison et al. (2006) utilizam este conceito para referir-se a situações em que a auto-apresentação de um indivíduo pode não ser verdadeira mas estar em consonância com a ideia que o mesmo tem de si. Um dos utilizadores entrevistados por Ellison et al. (2006) explica que pode haver uma diferença entre o que uma mulher pensa que é um bom corpo e o que ele pensa que é um bom corpo. No estudo realizado pelos autores (2006) quanto à auto-apresentação em sites de encontros, alguns dos utilizadores confessam que para evitar este síndrome pedem a amigos ou familiares que leiam e validem os seus perfis.

A atitude dos indivíduos perante si mesmos influencia a forma como se adaptam a novos ambientes, daí que a auto-estima esteja também associada à popularidade no Facebook. Ser aceite e bem tratado em várias áreas da sua vida (i.e. escola, trabalho, on-line, entre outros) pode resultar em alta auto-estima, sendo que os indivíduos com esta característica são mais positivos, independentes, focados e autónomos, ao contrário dos que têm uma baixa auto-estima que tendem a ser mais negativos e a sentir-se inferiores, indignos, inseguros, ansiosos e deprimidos.

Segundo Zywica & Danowski (2008), a hipótese da Compensação Social, referida anteriormente, é consistente com o facto de adolescentes introvertidos e socialmente ansiosos, que têm dificuldade em desenvolver amizades, utilizarem a Internet com o objectivo de substituir uma rede social off-line indesejada, por contactos on-line. Por outro lado, a hipótese do Realce Social postula que adolescentes extrovertidos e populares são motivados a acrescentar contactos on-line, aos contactos que compõem a sua rede social off-line.

Neste contexto, são introduzidas duas hipóteses, testadas por Valkenburg & Peter (como citado por Zywica & Danowski, 2008): a da Privação Social ("Social Deprivation") e do Efeito de Estimulação ("Stimulation Effect"). A primeira defende que os indivíduos que passam mais tempo on-line reduzem o seu bem-estar porque dedicam menos tempo à interacção social no contexto off-line. Zarghooni (2007) denomina este fenómeno de “(…) ‘detached self-presentation’. While this person is busy with managing online impressions, he may not pay heed to his offline impression“. Por outro lado, a hipótese do Efeito de Estimulação postula que os indivíduos aumentam o seu bem-estar ao passar mais tempo on-line, pois aumentam a qualidade das suas relações off-line.

Zywica & Danowski (2008) concluíram que os elementos de perfil que mais contribuem para a popularidade do utilizador no Facebook são o número de amigos e o tamanho do seu mural. No entanto, outros elementos têm influência, tais como os grupos, aplicações utilizadas, fotografias e informações pessoais. Por outro lado, a maioria dos utilizadores entrevistados pelos autores (2008) concordam que utilizadores que estão identificados num maior número de fotografias de amigos são mais populares. Também Siibak (2010) concluiu que, para além de um grande número de amigos aumentar a probabilidade de o utilizador se tornar popular, ter como amigo alguém popular na comunidade pode ser um factor determinante para esse facto.

A análise textual elaborado por Zywica & Danowski (2008) demonstrou que tanto os utilizadores populares como impopulares utilizam a palavras "amigos" frequentemente para descrever o que significa ser popular no Facebook. Para além disso, muitos dos participantes afirmam que a popularidade é-lhes insignificante. Os utilizadores populares e impopulares utilizam expressões diferentes para descrever aqueles que tentam ser populares no Facebook. Por um lado, os utilizadores populares utilizam adjectivos como "chatos", "jovens" e "sozinhos". Por outro lado, os utilizadores impopulares utilizam adjectivos como "imaturo" e com baixa auto-estima. Ambos os grupos utilizam a palavra "inseguro". Como já foi dito, poucos utilizadores admitem fazer algo para aumentar a sua popularidade no Facebook. Afirmam, porém, publicar fotografias com bom aspecto, fotografias falsas, fotografias com celebridades... Os respondentes que conhecem pessoalmente alguém que tenta ser popular no Facebook utilizam muitas vezes a palavra "adicionar" para descrever as suas atitudes on-line. Isto está relacionado com adicionar outros utilizadores ou adicionar a maior quantidade possível de utilizadores.

Segundo Utz (2010), as redes sociais trouxeram consigo dois novos tipos de informação gerada por outros: a informação gerada pelos amigos e a informação gerada pelo sistema, nomeadamente a quantificação dos amigos. Os perfis das redes sociais contêm, assim, várias fontes de informação: o eu, os amigos e o sistema.

A autora (2010) conclui que o perfil do utilizador, as fotografias de perfil dos seus amigos e o número de amigos a ele associados influenciam a geração de impressões. No que toca à popularidade, o perfil do utilizador tem uma forte influência. No entanto, o número de amigos e as suas fotografias de perfil têm menos influência do que a autora (2010) previa no início do seu estudo. Utz (2010) concluiu, no entanto, que um utilizador com muitos amigos pode ser visto como superficial e os indivíduos podem questionar a qualidade dos seus amigos. "The results show that people expect people to have similar friends; if the friends make an extraverted and outgoing impression, the target is perceived as more popular than when the friends make an introverted impression” (Utz, 2010).

Ao analisar-se as conclusões de Zywica & Danowski (2008), pode admitir-se que as duas hipóteses inicialmente postuladas foram comprovadas. Os indivíduos mais extrovertidos e com alta auto-estima suportam a hipótese do Realce Social, sendo populares tanto no Facebook como no contexto off-line. Por outro lado, os indivíduos menos populares off-line suportam a hipótese da Compensação Social, sendo que tentam compensar a sua baixa auto-estima procurando e lutando mais por obter uma elevada popularidade no Facebook. Assim sendo, as conclusões devem ser retiradas com base na distinção entre grupos de utilizadores analisados.

Os utilizadores mais populares são normalmente extrovertidos com alta auto-estima. No entanto, a maioria dos utilizadores extrovertidos com baixa auto-estima também são considerados populares. Os utilizadores mais impopulares são maioritariamente os utilizadores introvertidos com baixa auto-estima. Já os utilizadores introvertidos com alta auto-estima encontram-se no meio, com 48.2% considerados impopulares e 34.2% considerados populares (Zywica & Danowski, 2008). "It is also interesting to know that popularity is more than just something that exists in real life. It also exists on Facebook and perhaps on other SNSs. This adds a new level of complexity to the social lives of some youth. They may not only want to be popular in school, but also in virtual spaces, and some with less popularity offline appear to strive extra hard for it online" (Zywica & Danowski, 2008). O estudo dos autores (2008) sugere, no entanto, que a popularidade on-line não é tão definida ou fundamentada como a popularidade off-line. A popularidade on-line varia mais do que a popularidade off-line, havendo mais desconexão em relação a variáveis como a sociabilidade e auto-estima. Utz (2010) defende igualmente que ser popular on-line não é necessariamente o mesmo que ser popular off-line.

Apesar de existirem algumas tendências gerais quanto à apresentação do eu on-line, esta pode sofrer alterações consoante o género e idade dos indivíduos. Pouca é a investigação realizada com o objectivo de tentar compreender as diferenças entre géneros e idade, no que toca à apresentação do eu on-line. No entanto, existem alguns dados que merecem ser mencionados.

Strano (2008) estudou os factores que os utilizadores têm em conta quando escolhem uma fotografia para ser publicada no seu perfil do Facebook, tendo em conta que a gestão de impressões poderia variar de acordo com a idade e o género. As conclusões da autora (2008) indicaram que os utilizadores alteram a sua fotografia de perfil, em média, aproximadamente sete vezes por ano, sendo os utilizadores com 31 anos ou mais aqueles que menos alteram a fotografia de perfil, o que sugere que a idade influencia a forma como os utilizadores utilizam o Facebook. Neste sentido, Strano (2008) salienta que os utilizadores nesta faixa etária são, também, os que utilizam o Facebook há menos tempo, com 60.7% de utilizadores com 31 anos ou mais a utilizar a rede há apenas um ano ou menos.

A autora (2008) concluiu, também, que as mulheres alteram com mais frequência a sua fotografia de perfil. Uma possível explicação cultural será o facto de as mulheres mostraram-se mais insatisfeitas com a sua aparência. Os indivíduos do sexo masculino, que compunham a amostra de Strano (2008), afirmaram com mais frequência que alteram a sua fotografia com o intuito de parecerem mais atraentes. As mulheres tendem a querer aproximar-se do seu ideal de beleza, utilizando a fotografia de perfil para esse efeito. Para além disso, tendem a construir uma identidade classificada como feliz e apaixonada, com tendência para se descreverem na sua fotografia de perfil como a sorrir, parecendo felizes e apaixonadas.

A forma como os utilizadores expõem, por exemplo, um relacionamento no Facebook pode diferir entre os géneros, sendo que as mulheres pretendem definir-se como estando num forte relacionamento, apesar de não quererem ser conhecidas apenas através do seu parceiro, e os homens publicam fotografias com as suas parceiras para fortalecer os seus relacionamentos e para evitar avanços de outros utilizadores do sexo feminino (Strano, 2008).

A autora (2008) observou um certo individualismo masculino, sendo que os homens afirmam que as suas fotografias de perfil fazem-nos ser únicos. No entanto, ambos os géneros dão importância a ter fotografias com a família, amigos ou alguém que lhes é próximo e que é importante nas suas vidas, o que sugere que certos tipos de identidade de grupo são importantes para os utilizadores do Facebook. Relativamente à idade, os utilizadores entre os 22 e os 30 anos tendem a alterar a sua fotografia de perfil com o intuito de mostrar eventos e actividades em que estiverem envolvidos (Strano, 2008). Este grupo de utilizadores é o que mais afirma que as suas fotografias de perfil representam uma ocasião especial e o que menos gosta de surgir sozinho na fotografia de perfil. Os adolescentes mais velhos tendem a disponibilizar mais fotografias que simbolizem conexões sociais, enquanto os adolescentes mais jovens publicam fotografias mais chamativas e individualistas. Curiosamente, os utilizadores com 31 anos ou mais seguem a mesma tendência dos adolescentes mais jovens, preferindo publicar fotografias em que estejam sozinhos e onde surja apenas a sua face. Os utilizadores adultos são, também, aqueles que gostam menos de ser fotografados com amigos e que mais afirmam ter editado as suas fotografias para obter um efeito único no seu visual.

O estudo de Strano (2008) demonstra que os utilizadores mais velhos alteram a sua fotografia de perfil com menos frequência e preferem publicar fotografias onde não surgem acompanhados. Estes resultados indicam que os utilizadores adultos tendem a construir uma identidade individual mais única e solitária, comparativamente com os utilizadores entre os 20 e 30 anos, seguindo a tendência demonstrada pelos jovens adolescentes. Porém, é necessário ter em conta, como já foi referido, que os utilizadores adultos são os que utilizam o Facebook há menos tempo.

Por sua vez, Zywica & Danowski (2008) concluíram que 9.6% dos utilizadores jovens (nascidos antes de 1986) admitem exagerar ou falsificar informação do perfil algumas vezes, ao contrário dos utilizadores adultos (nascidos depois de 1986), sendo que apenas 4.5% dos utilizadores desta faixa etária admitem esse facto.

Para além de especificidades quanto ao género e idade dos utilizadores, o formato em que os conteúdos são publicados (texto, imagem estática, vídeo, entre outros) poderá influenciar a forma como o indivíduo se apresenta on-line. O presente estudo tem como objectivo compreender as especificidades do vídeo no contexto da auto-apresentação do indivíduo, especificamente na rede social Facebook. Na secção seguinte, serão apresentadas algumas das vantagens e desvantagens trazidas pelo vídeo para este fim, ainda que fora do contexto on-line.

Vídeo e auto-apresentação: Especificidades

Durante o processo de revisão da literatura, foi possível observar que os conteúdos audiovisuais têm sido muito pouco associados à questão da apresentação do eu on-line. Como foi possível observar pela breve descrição das principais características do vídeo on-line, e pela sua crescente proliferação por toda a Web e, especificamente, pelas redes sociais, este formato tem revolucionado a disponibilização de conteúdos na Rede. Nesse sentido, foi considerado pertinente que o principal objectivo deste estudo fosse averiguar de que forma o vídeo tem sido utilizado pelos utilizadores no contexto da sua apresentação on-line.

Apesar da crescente expansão do vídeo na Internet, é curioso notar que, segundo dados do relatório de 2010, referente à utilização da Internet em Portugal (LINI, 2010), 65.1% dos utilizadores inquiridos nunca fazem upload de vídeos ou filmes, sendo que apenas 2% assumem fazê-lo diariamente ou várias vezes por dia. Da totalidade de utilizadores que utilizam esta funcionalidade na Internet, 25.8% tem entre 15 a 24 anos e, curiosamente, os utilizadores entre os 35 e 44 anos utilizam esta funcionalidade mais do que os que têm entre 25 a 34 anos.

Apesar de não ter sido encontrado nenhum estudo que se dedicasse à questão da utilização do vídeo, especificamente para auto-apresentação on-line, foi possível identificar um trabalho (Tseng, 2010) que retrata a utilização deste formato para candidaturas a empregos. Segundo Zarghooni (2007), “Sel-presentations become more important when people want to achieve something, such as improving or initiating relationships, doing well on a Job interview or obtaining sympathy. It is important for facilitating communication that we take care of how we look, smell and behave”.

Tseng (2010) defende que a era digital potenciou o surgimento de candidaturas a empregos em diferentes formatos, nomeadamente em formato audiovisual, sendo que anteriormente as candidaturas faziam-se, principalmente, em formato de texto, através do curriculum vitae ou das autobiografias. Segundo o autor (2010), as candidaturas em formato vídeo permitem a auto-apresentação do candidato, através da sua performance. Servem, portanto, a função de pré-entrevista. Na análise dos vídeos submetidos, é necessário ter em conta o que os candidatos dizem, como comunicam e quais os destinatários da candidatura (entidade empregadora). O conceito central da análise do estudo é a performance do candidato (persuasão, identidade, actos no discurso e arte verbal) e a relevância da mesma, sendo que no caso da auto-apresentação no âmbito de candidaturas para empregos estes dois factores andam de mãos dadas. O discurso tem, assim, um papel preponderante na cadeia performativa, tendo como objectivo persuadir o destinatário a agir, impressionando e influenciando a sua decisão. Assim sendo, no âmbito da performance, é necessário analisar tanto a produção como a recepção verbal, que pode ser positiva ou negativa. A relevância, por sua vez, demonstra a necessidade de tornar pertinente a apresentação para o destinatário ou contexto. A apresentação deve, assim, ser convincente e apropriada. Tseng (2010) descreve a cadeia performativa dos candidatos, assim como os elementos a ter em conta na sua análise, através dos esquemas presentes na Figura 2:

Figura 2: Cadeia performativa das candidaturas em formato vídeo

(Fonte: “Analyzing the discourse of job-application videos: performance and relevance”, Tseng, 2010)

No site do concurso estudado por Tseng (2010), pedia-se que os candidatos criassem um vídeo com a duração de até um minuto, em inglês, onde explicassem porque são bons candidatos para ocupar o posto, de uma forma divertida e criativa. Esta descrição demonstrava, desde já, o que o destinatário esperava receber. Nesse sentido, surge o princípio de interesse difundido por Leech (como citado por Tseng, 2010), que depende do que é relevante para o destinatário, do objectivo da comunicação e da forma como as competências verbais e não verbais são demonstradas. "As with stage performance, verbal communication entails one or more performers and has a particular and immediate effect on the audience. For the performance to be well received, the performer has to strive to achieve the best possible effect on the audience" (Tseng, 2010).

Tseng (2010) começou por escolher 50 vídeos da lista de vídeos submetidos, tendo, no final, escolhido para análise aquele que foi considerado o mais performativo. O mesmo foi transcrito na íntegra, tanto a sua comunicação verbal como a não verbal, pois o aspecto visual (acções) do vídeo complementa a informação fornecida oralmente. O autor (2010) concluiu, portanto, que a utilização de metáforas e ambiguidade pode interessar o destinatário, caso estes elementos sejam utilizados de uma forma apropriada. Estas características podem, assim, activar um elevado nível de envolvimento do destinatário com o conteúdo. Para além disso, foi possível concluir que as acções do candidato, assim como a comunicação verbal, são premeditadas para persuadir o destinatário a aceitar a candidatura.

Landström et al. (2005) estudaram as diferenças entre a visualização de um testemunho, relativo a um determinado incidente, ao vivo e em gravação de vídeo. Apesar de o seu trabalho não estar relacionado directamente com a questão da auto-apresentação dos indivíduos, torna-se relevante para o presente estudo, visto analisar as diferenças entre dois modos de apresentação e consequente observação relativamente ao mesmo incidente. Importa, pois, ressalvar que o estudo de Landström et al. (2005) tem uma maior aplicação prática na área da criminologia e da justiça.

No estudo “Witnesses Appearing Live Versus on Video: Effects on Observers’ Perception, Veracity Assessments and Memory”, Landström et al. (2005) têm, pois, como principal objectivo compreender de que forma as diferenças ente os dois modos de apresentação influenciam a percepção, avaliação da veracidade e memória dos observadores do testemunho. Durante a fase de recolha de dados, foram utilizadas 12 testemunhas entre os 19 e 36 anos (cinco do sexo masculino e sete do sexo feminino), observadas por 122 indivíduos entre os 19 e 48 anos (40 do sexo masculino e 82 do sexo feminino). A metodologia de recolha de dados consistiu em descrever às testemunhas um incidente, dividindo-as, posteriormente, em dois grupos: um grupo de testemunhos verdadeiros e um grupo de testemunhos falsos. Os participantes observavam, assim, os testemunhos nos seus dois modos de observação (ao vivo e em vídeo), avaliando a prestação dos testemunhos segundo os três itens de análise: percepção, veracidade e memória.

A revisão da literatura dos autores (2005) permitiu identificar algumas diferenças entre a análise de um testemunho ao vivo e através da visualização de vídeo. A observação face-a-face do testemunho de um sujeito é mais similar a uma conversa do que a visualização de um vídeo de um mesmo, pelo que os observadores ao vivo podem analisar o testemunho com mais clemência do que os observadores do vídeo. Para além disso, foi possível compreender quais os principais factores que demonstram que a testemunha não está a ser totalmente sincera no que relata. Os estudos têm demonstrado que os testemunhos falsos são, na maior parte das vezes, acompanhados de mais distúrbios no discurso (erros de discurso e hesitações) do que o normal. Para além disso, existe uma tendência para os indivíduos que fornecem testemunhos falsos fazerem pausas mais longas e mais frequentes durante o discurso; movimentarem os dedos, pernas e pés com mais frequência; terem um tom de voz mais alterado; demonstrarem uma maior tensão; incluírem elementos incomuns nas suas histórias, e terem uma maior dificuldade no pensamento. Os estudos têm também demonstrado que os sujeitos sinceros dão testemunhos mais longos e pormenorizados e, consequentemente, mais informação para relembrar comparativamente com os sujeitos que dão testemunhos falsos. Parte-se, portanto, do pressuposto que os testemunhos verdadeiros fazem mais sentido, sendo, por isso, mais fáceis de relembrar pelos observadores.

Neste sentido, Landström et al. (2005) partiram para a recolha de dados com três hipóteses principais:

1) A Hipótese 1 prevê que os observadores percebam os testemunhos verdadeiros como mais positivos, agradáveis, confiantes, plausíveis e detalhados do que os testemunhos falsos;

2) A Hipótese 2 prevê que os observadores dos testemunhos ao vivo avaliem os testemunhos e a aparência dos sujeitos mais positivamente que os observadores dos testemunhos em vídeo;

3) A Hipótese 3 prevê que os testemunhos verdadeiros sejam relembrados com mais precisão que os testemunhos falsos.

Os resultados demonstraram que os observadores que visualizaram testemunhos verdadeiros avaliaram-nos mais positivamente que os observadores que visualizaram testemunhos falsos. Elementos como o detalhe e a consistência do testemunho, a dificuldade de pensamento, a naturalidade e o relaxe foram avaliados significativamente, de uma forma mais positiva, em testemunhos verdadeiros do que em testemunhos falsos. Para além disso, os observadores dos testemunhos ao vivo avaliaram as testemunhas e a sua aparência mais positivamente do que os observadores dos testemunhos em vídeo, sendo que estes últimos dizem que as testemunhas que analisaram têm mais dificuldade de pensamento que os observadores ao vivo. Os observadores ao vivo julgam, ainda, as suas testemunhas como mais honestas que os observadores em vídeo, reportando mais elementos da comunicação verbal do que os observadores dos testemunhos em vídeo. Landström et al. (2005), porém, realçam que “(…) the physical proximity to the witnesses may make the live observers feel obliged to submit to normal conversational rules, which do not allow for na equally critical evaluation of the conversational partner. (…) the physical proximity made the live observers identify more with the witnesses, and feel more sympathy for them, which tem was reflected in the more positive perception of the witnesses.” Os observadores que analisaram testemunhos verdadeiros têm tendência para reportar mais informação do que os observadores que analisaram testemunhos falsos, demonstrando que os observadores têm uma melhor memória para testemunhos verdadeiros do que para testemunhos falsos. Os autores (2005) concluem, assim, que o modo de apresentação de um testemunho é um factor importante no processo de avaliação de depoimentos de testemunhas e uma parte crucial da mensagem.

Como foi visto neste capítulo, a questão da auto-apresentação do sujeito tem sido amplamente estudada, nomeadamente após o surgimento da teoria dramatúrgica de Goffman, em 1959. Com o surgimento da Internet, foram vários os investigadores que se interessaram por esta questão, estudando a auto-apresentação nos sites pessoais, nos MUDs, chats e, mais recentemente, nos sites de encontros e redes sociais on-line, popularizadas pelo advento da Web 2.0. Apesar das redes sociais, mais especificamente do Facebook, permitirem a publicação de conteúdos gerados pelos utilizadores em vários formatos, o vídeo não tem sido associado à auto-apresentação do indivíduo nestas plataformas. O objectivo deste estudo é, pois, compreender a frequência com que o vídeo é utilizado pelos utilizadores no contexto da sua auto-apresentação on-line nas redes sociais, assim como de que forma é utilizado para esse fim. Neste contexto, o próximo capítulo desta dissertação debruçar-se-á num estudo de situações reais, de utilização de vídeo para apresentação do eu, no Facebook.

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