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Análise Qualitativa

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Tabela de conteúdo

A Análise Qualitativa

Características Gerais

Afonso (2005), em comparação com a interpretação quantitativa, classifica o tratamento da informação qualitativa como “muito mais ambíguo, moroso e reflexivo, que se concretiza numa lógica de crescimento e aperfeiçoamento” (2005, p. 118). Apresenta a abordagem à construção interpretativa de Anselm e Corbin (1998), que se consubstancia em três fases:

- Descrição – esta fase caracteriza-se pelo  recurso às palavras para reproduzir uma imagem mental, experiência, emoção, situação, etc., respeitando, na íntegra o ponto de vista do seu autor.
- Estruturação  conceptual – trata-se de uma estruturação dos dados em categorias específicas, organizadas em função das suas especificidades.
- Teorização – segundo o autor “a teorização  não consiste só na produção e intuição de conceitos e sua formulação num esquema lógico, sistemático e explicativo. Inclui também as considerações das implicações desse esquema, a organização de trabalho empírico para atestar essas implicações, e o confronto entre os esquemas  conceptuais que vão sendo elaborados e os novos dados que vão sendo recolhidos, com o objectivo de consolidar a teoria em construção”  (Afonso, 2005, p.119).

De seguida serão apresentadas perspectivas de diferentes autores sobre a análise de dados qualitativos. Embora haja muitos pontos de contacto, existem diversas formas de tratar dados qualitativos, pelo que se optou por uma abordagem individualizada, no sentido de dar a conhecer o modelo de análise de cada autor ou conjunto de autores. O modelo a adoptar por cada investigador dependerá de uma multiplicidade de factores, nomeadamente o paradigma de investigação, os objectivos do trabalho, as questões de investigação e os métodos de recolha de dados. Considera-se, portanto, vantajoso, que a escolha do modelo de análise de dados resulte de um processo de análise reflexivo e crítico das diferentes perspectivas existentes.

Perspectiva de Bogdan e Biklen (1991)

Para Bogdan e Biklen (1991) existem diversas formas de trabalhar os dados resultantes de uma investigação qualitativa, distinguindo entre dois tipos de abordagem: a análise concomitante com a recolha de dados e a análise após a recolha de dados.

Análise concomitante com a recolha de dados

Os autores reconhecem que existe uma análise que tem de ser feita no momento de recolha de dados. Assim, apresentam algumas sugestões no sentido de tornar o processo de análise mais eficiente:

- Fazer escolhas que contribuam para afunilar o âmbito do estudo e recolher dados mais precisos e centrados num contexto ou sujeito(s) específico(s);

- Optar por um modelo investigativo;

- Elaborar questões de natureza aberta e analítica. Num estudo qualitativo, as questões devem ser mais orientadas para processos e significados do que para aspectos como causas ou efeitos;

- Planificar as sessões de recolha de dados no sentido de dar resposta ao que ainda não se sabe e se pretende saber, o que poderá levar à necessidade de proceder a reajustes do plano inicialmente elaborado;

- Registar notas / comentários e especular de modo a estimular o pensamento crítico sobre o que observa;

- Redacção periódica de memorandos, num estilo informal e livre, de modo a estabelecer ligações entre os dados que observou e as suas notas / comentários;

- Confrontar os sujeitos observados ou, segundo os autores, “informadores-chave”, com a informação recolhida, no sentido de estes validarem os dados;

- Proceder à revisão da literatura paralelamente ao trabalho de campo. Esta perspectiva contrasta com a de outros autores como Glaser, que consideram que a revisão teórica deve ser primeiro passo na investigação qualitativa. O investigador não deve deixar que as leituras efectuadas funcionem como inibidoras do pensamento crítico;

- Expandir os horizontes analíticos através da utilização de metáforas;

- Utilizar auxiliares visuais como diagramas, tabelas e matrizes, que poderão facilitar o processo de análise.

Análise após a recolha de dados

Findo o processo de recolha é necessário organizar a informação de acordo com um esquema que tem de ser desenvolvido, denominado por categorias de codificação. A criação de um sistema de codificação inicia-se com diversas leituras da informação recolhida no sentido de encontrar regularidades, padrões, temas recorrentes, procurando palavras ou frases capazes de os sistematizar. Estas palavras ou frases apelidam-se de categorias de codificação e são influenciadas tanto pelas questões de investigação, como pelos objectivos. Ainda assim, os autores apresentam exemplos de códigos, no sentido de ilustrar como é que a informação pode ser codificada:

- Códigos de contexto: nomeadamente bibliografia descritiva;

- Códigos de definição da situação: como as percepções dos sujeitos sobre situações ou tópicos particulares;

- Perspectivas tidas pelos sujeitos: que incluem normas, regras e pontos de vista partilhadas;

- Pensamentos dos sujeitos sobre pessoas e objectos: relacionados com as percepções que os sujeitos têm uns dos outros;

- Códigos de processo: muito utilizados nas histórias de vida, referem-se a categorização de sequências de acontecimentos, alterações ao longo do tempo;

- Códigos de actividade: relacionam-se com tipos de comportamentos de carácter regular;

- Códigos de acontecimento: apontam para casos particulares ou com escassa incidência;

- Códigos de estratégia: “referem-se a tácticas, métodos, caminhos, técnicas, manobras e outras formas conscientes de as pessoas realizarem várias coisas” (p. 227);

- Códigos de relação e de estrutura social: relacionadas com padrões de comportamento entre pessoas (amizade, coligações, romances);

- Códigos de métodos: como por exemplo os comentários do investigador;

- Sistemas de codificação pré-estabelecidos.


As formas de trabalhar os dados

- Organizar todo o material de modo a facilitar a sua consulta.

- Desenvolver categorias de codificação e atribuir um código (número, abreviatura).

- Estruturar o material em unidades de dados. As unidades de dados tanto podem ser constituídas por um parágrafo, como uma frase, ou um conjunto de parágrafos.

Perspectiva de Afonso (2005)

O autor alude ao plano apresentado por Marshall e Rossman (1999), concretizado em seis fases:

Organização dos dados - caracteriza-se pela leitura sistemática de todo o material, organizando-o e estruturando-o de forma lógica e de modo a facilitar a consulta;

Produção de categorias, temas e padrões – caracteriza-se pela construção de uma grelha de categorização, que se vai construindo de forma gradual. As categorias de significação emergem da interacção entre os objectivos que presidiram à elaboração do instrumento de recolha de informação e as regularidades e tópicos que surgem de uma análise dos textos obtidos;

Codificação dos dados – caracteriza-se pela atribuição de um código, que pode ser um número, abreviatura de palavra ou cor, a cada categoria, de forma a que todo o texto se estruture em unidades de sentido;

Testagem das interpretações – caracteriza-se pelo estabelecimento de relações lógicas entre diferentes partes do material empírico, questionamento da coerência e solidez das interpretações que vão sendo efectuadas;

Busca de explicações alternativas – esta etapa é simultânea à anterior e procura debelar fragilidades nos argumentos construídos;

Produção do texto final – deverá haver a preocupação de responder às questões de pesquisa que nortearam todo o processo investigativo, tendo em conta, também, o quadro teórico elaborado.


Perspectiva de Quivy (2008)

A respeito da análise das informações em ciências sociais, Quivy refere que o objectivo de uma investigação é responder a um problema e que, para tal, se começa por formular hipóteses e efectuar observações inerentes a essas hipóteses. De acordo com o método escolhido temos um conjunto de informações recolhidas. Quivy distingue entre as fases da análise da informação, as operações necessárias a essa análise e os principais métodos de análise.

Fases de análise de informação:

1- Verificação empírica de modo verificar se os resultados obtidos correspondem aos resultados esperados pela hipótese. 2- Interpretação de factos inesperados e rever ou afinar as hipóteses de modo a poderem tirar-se conclusões.

Geralmente trabalha-se por componentes ou dimensões, e elabora-se, para cada uma delas, uma síntese de informações. Ou seja, trabalham-se as informações para os conceitos. Por vezes, é conveniente construir um índice que sintetize as informações fornecidas (criar uma variável (global), por exemplo).

O objectivo é reagrupar os dados relativos a uma dimensão (ou componente) e descrevê-los por meio de um índice pertinente, ou seja, criar uma variável. Procede-se de igual forma para todas as dimensões (ou componentes) podendo não ser possível calcular o índice global para todas. Calculam-se as percentagens e respectivas conclusões de cada elemento. Através destas sínteses parciais elaboram-se as conclusões. Para tal, recorre-se a testes estatísticos apropriados. Assim, para comparar índices existe um teste de comparação de médias, para comparar percentagens recorre-se a um teste das proporções ou teste do quiquadrado.

Contudo, podem surgir problemas de análise entre as variáveis e o seu significado pelo que, nesta fase, se devem considerar as variáveis-teste (que foram introduzidas na fase de construção, pelas hipótese complementares). Estas variáveis podem modificar a interpretação dos dados.

Operações da análise das informações (dados quantitativos ou qualitativos):

1. Descrição e preparação dos dados necessários para testar as hipóteses

Esta operação consiste na descrição e agregação dos dados. A descrição passa pela distribuição sintética dos dados com a ajuda de quadros, gráficos e medidas descritivas (média, desvio padrão e mediana) com o objectivo de evidenciar as características da distribuição da variável (por exemplo, normal, exponencial). A agregação de dados ou variáveis consiste em agrupar em subcategorias ou mesmo descrevê-los através de um novo dado. Para descrever uma variável através de uma expressão sintética tem que se ter em conta se a variável é qualitativa nominal (as suas modalidades não se podem ordenar), ou ordinal (as suas modalidades podem-se ordenar), se é uma variável quantitativa contínua ou discreta. As variáveis qualitativas e quantitativas não são tratadas da mesma forma, logo esta situação deve ser tida em consideração quando se elaborarem os instrumentos de observação. Para descrever uma variável nominal através de uma expressão sintética (medida descritiva) utilizam-se as percentagens, no caso de uma variável ordinal utiliza-se a mediana, e caso seja umas variável quantitativa utiliza-se qualquer medida descritiva (média, media e percentagens). Esta operação é particularmente importante se for necessário agregar variáveis para reconstruir um conceitos e exprimi-lo por uma medida sintética.

2. Análise das relações entre variáveis

Esta análise consiste em relacionar as variáveis correspondentes aos termos das hipóteses (conceitos, dimensões, indicadores ou atributos). Inicialmente estudam-se as ligações entre as variáveis das hipóteses principais, seguindo-se, posteriormente, para as hipóteses complementares (que podem surgir na fase de construção ou no decurso da análise, como resultado de informação inesperada). Nesta operação devem estar presentes as variáveis-teste (introduzidas pelas hipóteses complementares assegurando que a relação pressuposta pela hipótese principal não é enganadora). Esta operação permite revelar a independência, a associação (correlação) ou ligação lógica que pode existir entre as variáveis ou combinações de variáveis.

3. Comparação dos resultados observados com os resultados esperados a partir das hipóteses

Na fase da construção para cada hipótese associam-se relações que se julgam correctas e posteriormente deveriam ser confirmadas pela observação e análise de dados. As conclusões tiram-se da comparação entre os resultados esperados a partir da hipótese e os resultados observados que resultam das operações anteriores. Em caso de divergência entre os resultados esperados e observados, deve-se encontrar a origem da divergência e procurar as diferenças entre a realidade e o que pressuposto à partida, ou mesmo, elaborar novas hipóteses e a partir de uma nova análise os dados confirmá-las. Por vezes, é preciso completar a observação.

Principais métodos de análise das informações

A análise de conteúdos pode incidir sobre diversos tipos de mensagens (livros, artigos de jornais, documentos oficiais, programas audiovisuais, actas de reuniões, relatórios de entrevistas). O investigador tenta construir um conhecimento através de diferentes fontes. Os métodos de análise de conteúdos incluem a utilização de técnicas relativamente precisas, como o cálculo das frequências relativas ou das co-ocorrências dos termos utilizados, evitando que o investigador interprete os conteúdos em função dos seus próprios valores. A análise de conteúdo na investigação social permite tratar de forma organizada informações e testemunhos que apresentam um certo grau de profundidade e complexidade (por exemplo, relatórios de entrevistas pouco directivas).

Os métodos de análise de conteúdos podem dividir-se em:

- métodos quantitativos - mais extensivo (tratamento de um elevado número de informações sumárias), e que têm como informação de base a frequência do aparecimento de certas características de conteúdo ou correlação entre elas;

- métodos qualitativos – mais intensivos (tratamento de um pequeno número de informação complexas e pormenorizadas), que tem como informação de base a presença ou ausência de uma característica ou modo como os elementos do discurso estão articulados. Geralmente recorre-se a ambos os métodos.

Os métodos de análise de conteúdo podem dividir-se em três grandes categorias: análises temáticas, análise formais e análise estruturais.

- análises temáticas – incidem sobre certos elementos do discurso, podendo-se distinguir: - a análise categorial - que consiste em calcular e comparar as frequências de certas características previamente agrupadas em categorias significativas. Esta análise é essencialmente quantitativa, pois a característica é tanto mais frequente quanto mais importante for para o locutor; - análise da avaliação - que recai sobre juízos expressos pelo locutor, calculando-se a frequência dos diferentes juízos, assim como a sua direcção (juízo positivo ou negativo) e a sua intensidade.

- análise formais - incidem sobre as formas e encadeamento do discurso podendo distinguir-se : - a análise da expressão - forma da comunicação; - análise da enunciação - recai sobre o discurso e na sua própria dinâmica.

- análise estruturais - incidem sobre aspectos subjacentes e implícitos da mensagem, podendo distinguir-se : - a análise de co-ocorrências - estuda as associações de temas nas sequências da comunicação que informam o investigador acerca de estruturas mentais e ideológicas ou preocupações dissimuladas; - a análise estrutural - estuda os princípios que organizam os elementos do discurso, independente do conteúdo, procurando descobrir uma ordem oculta do funcionamento do discurso e elaborar um modelo operatório abstracto, no sentido de se estruturar o discurso tornando-o mais compreensível.

Principais vantagens relativas aos métodos de análise de conteúdos:

- São métodos adequados a estudos onde se pretende analisar informação implícita;

- Obrigam o investigador a afastar-se de interpretações instantâneas, pois trata-se de uma análise a partir de critérios que incidem mais sobre a organização interna do discurso que no seu conteúdo explícito;

- Permitem um controle posterior do trabalho, uma vez que existe geralmente um documento escrito (suporte material);

- Apesar da sua forma metódica e sistemática não prejudicam a profundidade e criatividade do investigador.

Limites e problemas

- A análise de conteúdos é difícil de generalizar;

- Alguns métodos de análise de conteúdos são muito simplistas, como a análise categorial, onde muitas investigações não se adaptam, tendo-se que optar por outro método, ou utilizar vários. A análise categorial é aplicada como complemento de outro método;

- A análise avaliativa é muito laboriosa e exige muito tempo e meios necessários para atingir os objectivos, pelo que se deve ponderar a sua escolha. A análise de conteúdo tem muita aplicabilidade, no entanto não existe um, mas vários métodos de análise de conteúdos.

Casos Particulares

Análise Qualitativa em Investigação Acção

Investigação Acção

Análise Qualitativa em Estudo de Caso

Estudo_de_Caso

Bibliografia

Afonso, N. (2005). Investigação Naturalista em Educação. Porto: Edições Asa.

Bogdan, R.& Biklen, S. (1994). Investigação Qualitativa em Educação. Uma Introdução à Teoria e aos Métodos. Porto: Porto Editora. (Trabalho original em inglês publicado em 1991).

Quivy, R. (2008). Manual de investigação em ciências sociais. Lisboa. Gradiva.

Stake, R. (2009). A arte da investigação com estudos de caso. Lisboa. Fundação Calouste Glubenkian.

Stringer, E. (2007). Action Research- Third Edition. Londres: Sage.



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