De WikiCampus
Data de Leitura: 12 de Outubro de 2010
Assunto: Construção da identidade no Facebook (ambiente on-line não-anónimo em expansão)
Resumo:
O artigo pretende analisar a construção da identidade em redes sociais (ambientes on-line não-anónimos). Anteriormente, os estudos focavam-se na construção da identidade on-line em ambientes anónimos, como os chats (estudos como os de Turkle, 1995). Estes estudos concluíam que os indivíduos têm tendência para falsificar as suas identidades e agir sob impulsos negativos nestes ambientes on-line. O facto de serem ambientes anónimos torna possível para o indivíduo reinventar-se e produzir novas identidades, diferentes da sua identidade off-line. Para além disso, a falta de demonstrações da aparência promove o desaparecimento de estigmas nestes ambientes, facilitando a criação das identidades desejadas, o que por vezes não é possível nas interacções off-line. No entanto, a auto-apresentação on-line varia de acordo com as características específicas de cada ambiente. Mais recentemente, surgiram estudos dedicados ao estudo da auto-apresentação em ambientes menos anónimos, tais como os sites de encontros. Os resultados destes estudos mostram que, apesar das identidades demonstradas serem reais e honestas na maior parte das vezes, os indivíduos tendem a distorcer um pouco a realidade, por exemplo através da escolha das fotos, onde enfatizam as suas melhores características e suprimem as piores. No entanto, para evitar surpresas desagradáveis em encontros presenciais, os utilizadores tendem a ser verdadeiros. Há uma tendência para coordenar a identidade on-line com a identidade off-line. No entanto, há uma tendência para “demonstrações de identidade” (“identity statements”) que normalmente não acontecem no contexto off-line. Os resultados dos estudos com enfoque nos sites de encontros não podem ser generalizados, visto estes serem orientados para o estabelecimento de relações amorosas off-line, o que afecta a forma como os indivíduos se apresentam.
A Internet não promove apenas ambientes anónimos. Existe um novo tipo de interacção entre indivíduos promovida on-line: as “anchored relationships”. Este tipo de relações estabelecem-se on-line, mas baseiam-se nos conhecimentos off-line do indivíduo (com a família, amigos, colegas de trabalho, etc). No entanto, os autores distinguem entre “nonymous relationships” e “acquaintanceship” (relação familiar). O conceito de “anchored relationships” neste estudo refere-se a relações entre indivíduos que se conhecem on-line, mas que podem não conhecer-se off-line.
Os ambientes não-anónimos colocam restrições à liberdade no que toca às demonstrações de identidade. Os indivíduos tendem a conformar-se com as normas sociais estabelecidas. No contexto off-line, os indivíduos que não cumprem com as normas sociais estabelecidas são punidos e as “máscaras” que utilizam diariamente transformam-se no seu “real eu” (“real self”), sendo que o seu “verdadeiro eu” (“true self”) fica suprimido (“hidden self”). Num contexto on-line anónimo, onde existe uma falta de responsabilização, as máscaras que os indivíduos utilizam diariamente são retiradas e o seu “verdadeiro eu” é, na maior parte das vezes, mostrado, assim como as outras identidade suprimidas. Os ambientes on-line não-anónimos, por sua vez, são um terceiro tipo de ambiente, onde os indivíduos têm tendência para exprimir um “esperado possível eu” (“hoped-for possible selves”). A percepção que o indivíduo tem de si pode ser dividida em duas categorias: “o eu do agora” (“now self”) e o “possível eu” (possible self”). O “eu do agora” estabelece identidades conhecidas pelos outros, enquanto que o “possível eu” é uma imagem do indivíduo que normalmente não é do conhecimento dos outros. O “esperado possível eu” é uma sub-categoria do “possível eu” que difere do “eu escondido real” (“hidden true self”) e do “idealizado eu”, visto o indivíduo desejar estabelecer uma identidade e acreditar que é possível fazê-lo nas condições apropriadas. Os ambientes on-line não-anónimos podem suprimir o factor presencial das características físicas, por exemplo, e contribuir para a emergência das identidades que o actor social espera estabelecer mas que é incapaz de fazê-lo no contexto off-line.
Os utilizadores do Facebook procuram estabelecer relações através de dois tipos de indivíduos: os que já conhecem pessoalmente e os que apenas conhecem (ou conhecerão) on-line. A maior função desta rede social é ajudar os utilizadores a conectar-se com os que já conhecem, estendendo a sua conexão com aqueles que ainda não conhecem. O Facebook permite, assim, que os seus utilizadores bloqueiem a certos visitantes a visualização de determinadas secções do seu perfil. Neste sentido, os utilizadores podem apresentar-se de formas diferentes a diferentes audiências.
Resultados:
- Utilizadores estão interessados em apresentar-se a uma audiência para além dos seus conhecidos, familiares e amigos;
- Utilizadores utilizam diferentes estratégias na construção da identidade no Facebook, que vão desde o mais implícito ao mais explícito: “visual self” (“self as a social actor”); “cultural self” (“self as a consumer”) e “narrative self” (“first person self”):
- “Visual self”: publicação de um grande número de fotografias (“Watch me and know me by my friends”. Estratégia mais utilizada.
- “Cultural self”: publicação de preferências e gostos. Enumerações culturais que se transformam em auto.descrições. “See what I like/do/read/listen to”.
- “Narrative self”: descrição na secção “Sobre mim”. Estratégia menos utilizada.
- Utilizadores do Facebook têm todos tendência para projectar uma identidade socialmente desejada:
- A maioria das fotografias é fotografias de grupo, o que demonstra um esforço para construir uma “identidade orientada para o grupo” (“group-oriented identity”).
- Uma forte competição pelo tamanho da sua rede social.
- Disponibilização pública dos comentários dos outros nos seus perfis.
- Atitude “anti-nerd” nos seus perfis: desporto, viagens, arte, saídas com amigos…
- Pensamentos profundos sobre a vida e sobre o controlo do destino.
- Poucas demonstrações de teor académico e religioso.
- Ocorrem alguns desvios de comportamento, tendo em conta as normas socialmente aceites. Facebook pode encorajar o surgimento dos “eus escondidos”, o que é normalmente visto em ambientes on-line anónimos. Na maioria das vezes, os indivíduos tentam agir em conformidade com o desejo de se tornarem populares.
- Ninguém demonstra interesse por indivíduos do mesmo sexo, apesar de nas entrevistas presenciais dois estudantes terem admitido a sua bissexualidade. Influência das normas socialmente aceites também no Facebook.
Conclusões:
- O “esperado possível eu” projectado no Facebook não é o “verdadeiro eu” projectado nos ambientes on-line anónimos nem o “real eu” apresentado nas relações estabelecidas pessoalmente. A auto-apresentação do eu no Facebook parece representar a identidade que o indivíduo aspira apresentar off-line, mas que ainda não teve oportunidade de fazer, por qualquer razão.
- A identidade é produzida segundo as características das situações específicas. É raramente algo inato do indivíduo, mas a maior parte das vezes um produto social, que varia segundo o contexto.
- Nos ambientes on-line não-anónimos, os indivíduos apresentam-se em linha com as expectativas sociais, podendo ser responsabilizados se não o fizerem.
- O mundo on-line e o mundo off-line não são dois mundos separados e que o indivíduo faz on-line pode trazer consequências para a sua vida off-line. A Internet, porém, fomenta novas oportunidades para a construção de identidades, o que pode ser usado para ultrapassar barreiras impostas no mundo off-line.
- O facto de o “esperado possível eu” ser uma identidade que o indivíduo espera que seja socialmente desejável não significa que não seja o ser “verdadeiro eu”. Apesar de não ser demonstrado no contexto off-line, poderá ter um verdadeiro impacto no indivíduo. A identidade é o que nós convencemos o outro a pensar sobre nós, não interessando se este processo se desenrola off-line ou on-line ou se é anti-normativo ou socialmente desejado.
- O Facebook é um site com múltiplas audiências. O facto de o utilizador poder controlar as suas configurações de privacidade permite com que o utilizador estabeleça a sua região da frente e a sua região de trás.
Palavras-Chave: Facebook, identidade, auto-apresentação, rede social, ambientes on-line anónimos e “não-anónimos”
Citações:
- “(…) the online world was not monolithic, and online sel-presentations varied according to the nature of the settings”. (p. 1817)
- “(…) the nonymous environment places constraints on the freedom of identity claims”. (p. 1818)
- “These kinds of privacy control functions enable Facebook users to present different self-images to different people, as they do offline”. (p. 1823) - “(…) Facebook users in our sample appeared to prefer the most implicit, with the almost universal selection of dense displays of profile photos and wall posts, followed by highly enumerated lists of cultural preferences associated with youth culture, and finally the minimalist, first-preson ‘about me’ statements.” (p. 1826)
- “It thus seems that the Facebook identities were not the identities users established in the offline world, nor were they close to the identities users would construct in anonymous online environments; rather, they were the hoped-for possible identities users would like to, but have not yet been able to, establish in the offline world”. (p. 1828)
- “The appeal is a much to the likeability of my crowd, the desirability of my boyfriend or the magic of my music as it is to the personal qualities of the Facebook users themselves.” (p. 1831)
Comentários: O artigo mais pertinente lido até à data. Importante para contextualizar a evolução das plataformas de comunicação on-line e, consequentemente, da auto-apresentação do eu neste tipo de sites. É de NOTAR que o estudo foi feito numa altura em que o Facebook ainda tinha um carácter muito institucional, ligado às instituições académicas dos EUA. A amostra é apenas composta por estudantes, de várias etnias.
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