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Informação / Jornalismo

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De WikiCampus

Tabela de conteúdo

Introdução

O âmbito da análise do objecto em estudo, a participação e a colaboração do cidadão em espaços de informação/jornalismo, não só tenderá como deverá inscrever-se numa perspectiva de mediação tecnológica, excluindo, se não de todo, pelo menos na essência, outros media, nomeadamente os tradicionais, como os conhecemos.

Porém, e pontualmente, admitimos recorrer, por razões que se prenderão com o sentido da sua contextualização, a outros cenários, que, embora não se venham a envolver na essência do trabalho em curso, poderão, de alguma forma, complementar todo um sentido, não apenas estético, antes as encruzilhadas de um percurso no sentido da convergência mediática, como a refere Henry Jenkins “uma convergência digital, que é acentuadamente mais percebida que a analógica e que aponta para novas possibilidades no cenário cultural, por ser reveladora de novas posturas da sociedade, decorrentes dos próprios agentes sociais” (JENKINS, 2009).

São, assim, muito substantivos os argumentos que nos conduzem a excluir do contexto deste artigo formas incipientes de algumas fórmulas participativas inerentes aos media tradicionais, sejam eles a imprensa escrita, nomeadamente, a imprensa regional pelas suas características de produto construído, muitas vezes, pelos destinatários das publicações sob a forma de suportes escritos de carácter activo ou reactivo, a rádio com a possibilidade que os tempos conduziram a uma lógica de antena aberta, ou a televisão (particularmente a teledifundida), onde a lógica paticipativa decorre através de mera expressão opinativa, recorrendo a suportes assíncronos.

Será importante compreender de que forma a comunicação se tornou importante para potenciar a participação e, consequentemente, a colaboração dos cidadãos, quer na criação de conteúdos, na sua edição ou na proposta de assuntos e temas a ver discutidos. Far-se-á a abordagem a esta forma de comunicação, como anteriormente referido, em media nacionais e internacionais, através das tecnologias privilegiadas, ou seja, tentar-se-á responder à questão: como está a tecnologia ao serviço da participação na informação/jornalismo?

As transformações estão a ocorrer de forma tão rápida que quase já não faz sentido falar apenas em Computadores Colectivos (CC), apenas porque todos fazemos parte da inteligência colectiva, de Jenkins (2009), mas em Computadores Colectivos móveis (CCm), ou seja, "trata-se da ampliação de formas de conexão entre homens e homens, máquinas e homens, e máquinas e máquinas motivadas pelo nomadismo tecnológico da cultura contemporânea e pelo desenvolvimento da computação ubíqua (3G, Wi-Fi), da computação senciente (RFID5, bluetooth) e da computação pervasiva, além da continuação natural de processos de emissão generalizada e de trabalho cooperativos da primeira fase dos CC (blogs, fóruns, chats, software livres, peer to peer, etc.)" (LEMOS, 2005: 2).

Postos estes pressupostos, naturalmente excluídos do contexto a trabalhar, partimos para o objecto em análise e que consignamos não apenas no estado da arte dos media participativos em Portugal e no plano externo, como nas implicações que trouxeram para a agenda mediática, com inúmeros e sensíveis reflexos nos mecanismos tecnológicos, que permitem ao cidadão o seu exercício de e-repórter, salvaguardadas as distância para o exercício da profissão de jornalista, como as definem a lei e os códigos da ética e deontologia.

Palavras-Chave

Ciberjornalismo, Cidadão, Convergência dos Media, Jornalista, Media Colaborativos, Media Participativos, Web 2.0

Ciberjornalismo

O utilizador da Internet, com a Web 2.0, vê o seu papel de utilizador passivo transformar-se em utilizador activo, em que participa na construção da própria Web, tornando-se um produtor de conteúdos em potencial.

Com esta mudança de atitude do utilizador, em 2006, o próprio consumidor foi eleito “Person of the Year” pela revista Time, e em 2007, foi eleito como “Ad Age Agency of the Year”, pela Advertising Age. Também de referir que em 2010, Mark Zuckerberg, criador da rede social mais participada do mundo em que estão conectadas mais de quinhentas milhões de pessoas, o Facebook, foi eleito “Person of the Year” pela revista Time.

Capa da Time (2006)
Artigo da Advertising Age (2007)
Capa da Time (2010)

Com a Web 2.0 há um novo paradigma que surge em que os utilizadores deixam de ser apenas receptores da notícia, podendo também ser emissores da notícia, onde há uma troca, participação e colaboração entre os envolvidos.

(Bowman; Willis, 2003)

O utilizador tem o poder de interferir directamente no processo noticioso com ou sem a supervisão de jornalistas profissionais. Essa interferência pode ser feita quando o próprio utilizador é o produtor da notícia, ou quando faz comentários e debate material jornalístico publicado por outros. A isto chama-se ciberjornalismo.

Vários são os nomes utilizados para o mesmo conceito, como por exemplo, ciberjornalismo, webjornalismo, jornalismo digital, jornalismo online, entre outros, que não é mais do que produção jornalística de informação praticado e divulgado através da Internet.

O ciberjornalismo tem vindo a sofrer várias modificações ao longo dos últimos anos devido aos fortes avanços tecnológicos desde o aparecimento das câmaras de vídeo e fotografias digitais aos leitores de mp3, aos smartphones, que auxiliam e optimizam todo o processo jornalístico tanto profissional como não profissional.

Pode-se caracterizar o ciberjornalismo pelo uso de vários tipos de media e a convergência destes devido às novas tecnologias da informação e comunicação que permitem que os conteúdos circulem em novos formatos e plataformas – convergência, pela participação do utilizador na produção e análise dos conteúdos divulgados – interactividade, pela possibilidade do utilizador incluir links nos conteúdos para outras páginas – hipertexto, pela liberdade de configuração dos conteúdos de acordo com necessidades e interesses do utilizador – customização, pelo armazenamento ilimitado dos conteúdos – memória e pela actualização em tempo real dos conteúdos – instantaneidade.

Segundo Foschini e Taddei (Cit. por Berbardini, 2009) o jornalismo participativo acontece quando o utilizador comenta a notícia que foi publicada, o jornalismo colaborativo acontece quando mais do que uma pessoa contribui para a produção da notícia podendo conter vídeos ou imagens a acompanhar, o jornalismo de código aberto acontece quando qualquer utilizador pode alterar o conteúdo da notícia como acontece nas wikis e o jornalismo grassroots acontece quando os utilizadores, que geralmente não participam das decisões da sociedade, participam na produção e publicação das próprias notícias causando um efeito poderoso no mundo da comunicação.

Uma das primeiras experiências de jornalismo colaborativo no mundo, foi o jornal sul coreano OhmyNews, fundado em 2000, com a filosofia “todo o cidadão é um repórter”. As notícias passam por jornalistas profissionais e se forem publicadas o utilizador recebe uma pequena quantidade de dinheiro como forma de recompensa.

A Participação (estado da arte)

em Contexto Nacional

O ciberjornalismo e a Academia

Remonta ao ano lectivo de 1999-2000 o surgimento numa universidade pública portuguesa da primeira cadeira com o nome Ciberjornalismo, integrada no curso de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com uma primeira aula ministrada por António Granado, tendo ainda início em 2000 a licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. Um percurso de alguma forma desfasado da realidade norte-americana e europeia, pois já em 1997 o departamento de jornalismo da Universidade de Duquesne, em Pittsburgh, Pensilvânia, iniciara o primeiro curso de jornalismo online numa universidade americana, com formação em Reportagem e Edição Online e Jornalismo Online e em 1996, o ciberjornalismo começava também a ser ensinado em faculdades de Ciências da Informação ou de Comunicação. A Universidade de Coimbra, através do Instituto de Estudos Jornalísticos, viria a criar, no ano lectivo 2002-2003, as cadeiras de Jornalismo em Linha e Ciberjornalismo, na Universidade da Beira Interior, o jornalismo online começava a ser leccionado no ano 2003-2004 e na Universidade do Minho, no lectivo de 2000-2001, verificou-se o aparecimento de blogues de alunos onde surgiam publicados os seus trabalhos.

O professor universitário Helder Bastos, já em Março de 2008, numa entrevista concedida ao sítio Almanaque da Comunicação[1], deixava pistas apontadas à concepção ou conceptualização de um cenário mediático para um futuro ao virar da esquina, quando é referido que em termos de aprendizagem e formação em Portugal, que “o papel das escolas, e sobretudo da universidade, é o de preparar os futuros jornalistas para o trabalho num ambiente profissional cada vez exigente, competitivo, flexível e carregado de desafios constantes, nomeadamente no que às novas tecnologias concerne. Compete à escola fornecer as ferramentas técnicas, práticas e teóricas essenciais a uma boa preparação para o cabal exercício do jornalismo. Exige-se, portanto, que as escolas e universidades estejam atentas aos desenvolvimentos no campo jornalístico e que sejam ágeis o suficiente para não correrem o risco de ficarem desfasadas em relação às novas realidades. Mais: do meu ponto de vista, as universidades devem esforçar-se por estar um passo à frente, antecipando tendências e experimentando laboratorialmente novas ferramentas e narrativas”.

Um percurso no sentido da convergência

É hoje de alguma forma difícil reproduzir o sentimento que tomava jornalistas e redacções há dez anos atrás, quando os tempos eram ainda de total experimentação, quer no campo jornalístico e mesmo no meio universitário e ninguém sabia com rigor qual o rumo que as coisas tomariam. Contudo, havia a certeza de que a revolução digital no jornalismo tinha chegado e que tinha vindo para ficar. Era à luz de uma nova realidade tecnológica, que Deuze (1999) lembrava que em ciberjornalismo escrever não se resume a redigir texto, mas antes a explorar todos os formatos possíveis a ser utilizados numa estória, de modo a permitir a exploração da característica-chave do novo media: a convergência.

As possibilidades narrativas permitidas pela convergência multimédia requerem, consequentemente, o planeamento das estórias através da elaboração de um guião (storyboard), encarado como essencial no processo de escrita não-linear. A aplicação do storyboarding no planeamento de uma estória online poderá, dependendo das práticas e exigências de cada media online, caber ao próprio jornalista. Para John Pavlik (2001), o ciberjornalista deve ser capaz de perceber as capacidades e a estética dos novos media, o que inclui o entendimento da natureza interactiva dos media digitais em rede e a aprendizagem de novas maneiras, não lineares ou multi- lineares, de narrativa jornalística. Afinal, o que Jenkins (2008) apelida de “narrativa transmediática”, ou seja, quando o produto já é criado com formatos diferentes, para distribuição em diferentes plataformas, pois sendo a convergência um processo intrínseco ao conceito de comunicação em rede, vários interesses convergem na Internet, seja entre pessoas, instituições ou empresas, com interesses afins.

A realidade portuguesa poderá andar um pouco a reboque das modas hi-tech internacionais, em algumas das suas componentes, o que não significa que o nível da discussão da sua essência tenda a baixar, ou a enveredar pelo óbvio lugar-comum. Trata-se afinal de uma realidade universal e como tal aberta a leituras diversas e nem sempre convergentes, o que acaba por se revelar de importância relevante na leitura que se procura desapaixonada, do que ainda há pouco tempo genericamente se inscrevia numa lógica de fluxos info-comunicacionais.

Uma inteligência colectiva é mais verdadeira?

O público exige, agora, participar activa e intimamente da cultura, uma vez que adquire poder com as novas tecnologias, ganhando um lugar de destaque na “intersecção entre os velhos e os novos meios de comunicação” (JENKINS, 2009). Afinal um ponto em parece que todos estão de acordo: das administrações aos jornalistas, dos académicos aos actores anónimos enquanto consumidores, agora estimulados para a participação colaborativa [2]. Contamos com variadíssimos exemplos resultantes desse apelo à participação, como serão os casos,a título meramente exemplificativo,dos registos videográficos dos temporais ocorridos na ilha da Madeira, ou o recente tornado que devastou um aárea signiifcativa do município de Tomar [3] e que trouxeram um contributo em sede de conteúdos, quiçá relevante para o interesse generalizado, veiculados quer pelas estações televisivas generalistas ou temáticas, quer pelas redes sociais, onde a agenda não está submetida a horários ou outros compromissos inadiáveis...


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Este novo enquadramento editorial e tecnológico implica que vários interesses venham a convergir na Internet, onde as pessoas encontram afinidades e as empresas se ligam a outras empresas que possam complementar os seus interesses nos negócios. Uma nova realidade onde e ao mesmo tempo, é possível estar online na Internet, com ou sem fios, a partir de unidades móveis capazes de suportar todo um processo de convergência mediático. Aliado a todo este arsenal tecnológico, as novas redes de telecomunicações permitem uma cobertura com grande eficácia em banda larga. A informação mais do que nunca está em qualquer lugar e pode ser acedida a qualquer hora. Torna-se possível, então, que “comunidades dispersas possam comunicar por meio da partilha de uma memória na qual cada membro lê e escreve, qualquer que seja a sua posição geográfica.” LEVY (1999)

É lançando um olhar reflexivo sobre o panorama dos media participativos em Portugal, que fica a convicção da importância de atentarmos no universo consumidor desta segunda década do século, recuperando a ideia de Henry Jenkins ao chamar a atenção para o facto da convergência mediática não se restringir ao desenvolvimento de equipamentos tecnológicos, nem à confluência de meios para uma única “caixa preta”. Aliás, como salienta, a convergência representa uma “transformação cultural, à medida que os consumidores são incentivados a procurar novas informações e a fazer conexões em meios e em conteúdos mediáticos dispersos”, o que significa que a convergência não acontece nos aparelhos em si, mas no cérebro dos consumidores individuais e nas suas interacções sociais. Uma leitura que suscita outra perspectiva a que Jenkins também faz referência, ou seja ao facto de que a sociedade mudou muito nos últimos anos, o que é revelador de que se tanta coisa mudou, o jornalismo e os jornalistas não podem ignorar esse facto, e terão de se reposicionar na cena social contemporânea, ou, por outro lado, se a convergência dos meios é mesmo um processo mais cultural que tecnológico e as transformações resultantes inevitavelmente estarão a contagiar os jornalistas.

A participação, os jornalistas e a indústria

Na sessão de abertura do II Congresso Internacional de Ciberjornalismo, que decorreu este mês de Dezembro de 2010, no Porto, Marcos Palácios, docente da Universidade Federal da Baía, no Brasil, partiu do princípio de que “é difícil não encontrar a edição online de um jornal de grande expansão que não ofereça diversas formas de levar o leitor a participar e a sentir-se, assim, parte integrante na construção do jornal”, para demonstrar os modelos de negócio que se apresentam no ciberjornalismo e a sua potencialidade para colmatar a crise da imprensa tradicional.

Segundo o conferencista, se inicialmente a estrutura do jornal online vivia da informação produzida pelos jornalistas, hoje tudo é diferente. Os utilizadores conquistaram um espaço de participação muito amplo, através dos comentários às notícias, na participação em inquéritos, na avaliação da importância das notícias e com o envio de trabalhos próprios (textos, fotos e vídeo), acrescentando que estas novas formas de atrair cada vez mais leitores foram potenciadas pelo efeito de "capilaridade" das redes sociais, como o Facebook e Twitter, que aumentam o fluxo de utilizadores para os jornais. Chamaria ainda a atenção para a fidelização dos leitores - outro dos modelos do negócio -, sendo a criação de comunidades um elemento importante. Afinal, segundo Marcos Palácios, “tudo novas formas de "prender" leitores, num estilo diferente da fidelização ao jornal impresso”.

Ao colocarem-se diferentes alternativas, quer quanto ao posicionamento, quer quanto à focalização temática deste artigo, optámos por uma perspectiva que recaísse num olhar simultaneamente abrangente e crítico sobre a realidade portuguesa, protagonizada por diferentes actores, fóruns e conteúdos intrinsecamente moldados por experiências de índole profissional, resultantes de investigação ou veiculados pela própria indústria. E foi nesse contexto que nos pareceu de extrema relevância, remeter uma significativa dose de importância para o “Encontro Tablets: Uma Nova Era de Comunicação”, que decorreu em Lisboa, com organização do jornal Expresso, sobre conteúdos, jornalismo, multimédia e hardware, [4] de onde retiramos ideias e perspectivas reveladoras, ou inovadoras, pela mão da tribo da indústria mediática em Portugal. E apesar do muito que foi apresentado e comentado quanto às virtualidades de um novo dispositivo tecnológico em abordagem, a memória do evento acabou por ficar marcada por Juan Antonio Giner (Innovation Media Consulting), ao afirmar que “falta visão estratégica de longo prazo, algo que os media não têm há muito tempo, porque estão demasiado preocupados com o futuro imediato e não vêem para além das contas do final do ano”, ou por Jay Rosen (Professor de jornalismo na NYU) , que disse “em vez de modelos de negócio, os media se deveriam concentrar em produzir conteúdos de qualidade”.

Refira-se a propósito, citando a opinião de António Granado no blogue Ponto Média, que “a qualidade é o que nos faz ler um jornal e não outro, o que nos faz ouvir uma rádio e não outra, o que nos faz ver um canal de televisão e não outro. Por que é que havia de ser diferente com a Web? Os leitores não se deixam enganar e não aceitarão conteúdos despejados de uma plataforma para outra, como se alguém pudesse viver de material reciclado. Investir nos novos meios e nas novas plataformas implica investir nos conteúdos e em quem os produz”. Por outro lado, para o criativo João Wengorovius, da BBDO Portugal, uma das principais agências nacionais e internacionais, os anunciantes vão ter de se adaptar à nova plataforma "é mais um ecrã em que vão ter de estar presentes", pedindo à plateia que contasse mentalmente quantos ecrãs tem em casa entre televisores, computadores, telemóveis, etc. Para Wengorovius, os tablets têm qualidades intrínsecas que levarão a alterações no próprio mercado publicitário, tais como o nível de personalização, a interactividade, a questão sensorial e o mixing de audio e video, isto é, os próprios conteúdos publicitários terão de ser mais ricos, mas o criativo insiste que, tal como noutros media, o conteúdo será sempre o factor-chave na comunicação, acrescentando que "o que é interessante nestes novos conceitos é o upside da capacidade de espalhar conteúdos originais e relevantes concebidos para funcionarem bem em qualquer écran".

Não deixa de ser relevante para além da mera curiosidade, um exemplo recente de uma estória em que o meio se tornou na própria mensagem quando nos Estados Unidos, um fã de Barack Obama pediu ao presidente um autógrafo mas, devido à proibição de utilizar canetas, por questões de segurança, utilizou um iPad. Obama não negou a assinatura e Sylvester Cann tornou-se o primeiro a possuir um autógrafo do presidente norte-americano no gadget da Apple. Um caso noticiado pelos jornais e pelas grandes cadeias de televisão americanas, que inevitavelmente culminaria no Youtube. [5].

Emergem contudo interrogações, agora partilhadas, tais como: os conteúdos produzidos pelos utilizadores são importantes para o jornalismo online, gerando maior fidelização e menos homogeneização dos conteúdos em relação a outros jornais? Existirá mesmo interactividade entre jornais e leitores se os comentários destes, por exemplo, não são respondidos? Não ficará essa participação por uma "conversa de surdos, ou um mero muro de lamentações, onde os temas não são hierarquizados? Ou esses mesmos comentários constituem já em si um novo género jornalístico? [Hélder Bastos][6], professor da Universidade do Porto, que acaba de dar à estampa o livro "Origens e evolução do Ciberjornalismo em Portugal: Os primeiros quinze anos (1995-2010)", refere que “apesar dos grandes avanços registados a nível de multimédia, há ainda um longo caminho para andar, a começar por "arranjar maneira de fazer pagar os sites e contratar equipas que trabalhem só para o online", acrescentando que "ainda não se encontrou a chave que permita ligar a ignição do negócio do online".

Quando os números do digital contam

Não surpreende o recente anúncio do Público, propriedade de um dos mais importantes grupos de media portugueses, traduzido na possibilidade de vir a reforçar a redacção da edição online e alargar o seu horário de funcionamento, sem prejudicar a versão em papel. De acordo com o Público Online, a grande aposta para 2011 é ter “uma redacção maior e produzir notícias num horário mais alargado, aumentar a interactividade com os leitores, produzir mais histórias exclusivas, criar novos canais e desenvolver projectos especiais”, crescendo no online sem lesar a qualidade do jornal impresso. Entre Janeiro e Junho de 2010, o “Diário de Notícias” registou uma quebra nas audiências de 19,5%, o “Público” de 15,8% e o “Jornal de Notícias” de 11,8%, enquanto as visitas aos respectivos sites aumentaram, como mostra o medidor de tráfego Netscope, resultante de uma parceria entre a Weborama e a Marktest, para aquele período. Uma tendência que se mantém, a avaliar pelos dados mais recentes, relativos a Outubro: o “Jornal de Notícias” aumentou o número de visitantes únicos em 36% por comparação com Outubro de 2009, o “Correio da Manhã” assistiu a um aumento de 19,8%, o “Diário de Notícias” viu o número de visitantes subir em 17,2% e o “Público” em 15,6%. O “Correio da Manhã”, além de ter registado a segunda maior subida do grupo, foi o único dos quatro a registar também uma subida das vendas em papel no primeiro semestre deste ano face ao período homólogo – um aumento de 6,6%, segundo a APCT. De assinalar que, com base na informação do Netscope, as páginas digitais da imprensa escrita são, globalmente, mais visitadas online, do que os sites dos canais televisivos ou da rádio. Complementarmente, assumem igual relevância os factos do grupo Controlinveste ter entrado em cena nos conteúdos para dispositivos móveis no final de Setembro, reforçando a presença dos órgãos portugueses num sector que começa a constituir uma fatia significativa do negócio da informação, enquanto a Controlinveste deu a conhecer as novas plataformas “mobile” para o “Diário de Notícias”, o “Jornal de Notícias” e a TSF, a revista “Visão”, da Impresa, apresentou conteúdos optimizados para o iPad e o semanário “Sol” assinalou o quarto aniversário com um site renovado e aplicações criadas de raiz para o iPad e iPhone.

Um conjunto de dados que poderia suscitar outras interessantes leituras com a sua transposição para outras áreas de análise, que o presente trabalho não pode comportar por razão diversa. Importará sim retirar algumas conclusões, em secção dedicada nesta página, ainda que se possam revestir de uma essência meramente circunstancial, tal a natureza efémera que a própria evolução tecnológica imprime no contexto do processamento da informação.

Faz parte do seu capital genético.

em Contexto Internacional

AgoraVox France

AgoraVox France é uma fundação 100% feita pelo cidadão e 100% participativa. As suas principais missões são a informação pública e a liberdade de expressão. Este projecto foi lançado em Março de 2005 e desde a sua origem já teve várias modificações tanto ao nível gráfico como ao nível das funcionalidades disponibilizadas. Além da versão em francês, também tem a versão em italiano, em inglês (em fase beta) e a versão vídeo.

Página Inicial do "AgoraVox"

Tem um sistema em que os utilizadores podem doar dinheiro para ajudar a Fundação AgoraVox a manter-se, tanto a nível de melhorar a qualidade do sítio, como a financiar os servidores, os recursos humanos, técnicos e jurídicos, etc...

As notícias que estão na página inicial ficam lá durante 24 horas e por defeito estão classificadas em função da sua audiência, ou então, por ordem cronológica.

Qualquer utilizador pode colaborar com notícias, desde que se registe, preenchendo alguns campos. Também pode votar no interesse das notícias de outros colaboradores e votar nos comentários. O utilizador ainda pode ouvir o artigo em formato mp3, clicar no “Gosto” do Facebook e partilhá-la noutras plataformas de redes sociais.

Oferece muitas outras formas de participação, como por exemplo, sondagens, inquéritos participativos onde os utilizadores têm um papel imprescindível que trazem informação e testemunhos, vídeo do dia, artigos mais lidos, os colaboradores do dia, os últimos comentários, perfil do utilizador (artigos publicados, comentários enviados e recebidos, notícias moderadas de uma forma positiva e/ou negativa), outras estatísticas, fóruns, etc...

Kuro5Hin

Kuro5Hin é um projecto colaborativo sobre tecnologia e cultura que foi aberto pelo programador Rusty Foster em 21 de Dezembro de 1999.

Página Inicial do "Kuro5Hin"

Qualquer utilizador pode registar-se como colaborador precisando apenas de um nome de utilizador e indicar um endereço de correio electrónico válido. Após registar-se o utilizador pode submeter notícias para a votação da comunidade.

O formulário para submeter as notícias tem alguns campos como o título, a introdução, o corpo da mensagem, a escolha do tópico, a escolha da secção, a possibilidade de colocar um inquérito, e antes de submeter poder-se pré-visualizar a notícia.

Para além de submeter notícias o utilizador pode votar em propostas de outros colaboradores e moderar comentários. A votação em propostas é para o utilizador poder escolher se aquela determinada notícia deve ser publicada na primeira página, publicar apenas na secção, abster-se ou eliminar. Por isso, na página inicial não estão necessariamente as últimas notícias publicadas, mas sim as que tenham sido escolhidas para aparecerem nessa posição. Depois de um determinado número de votos a notícia pode ser aceite ou recusada. Também pode avaliar os comentários feitos por outros colaboradores.

Todas estas formas de votação e/ou avaliação é uma forma de auto-gerir toda a comunidade de colaboradores e publicação de textos.

A equipa editorial, os colaboradores mais antigos com status de administradores do sistema, pode corrigir erros mas sempre procurando manter o sentido original do texto da notícia.

O sítio é dividido em várias secções:

  • Diaries – destinado para blogues pessoais;
  • Technology – destinado para artigos relacionados com equipamentos e programas;
  • Science – destinado para artigos relacionados com a pesquisa e estudos;
  • Culture – destinado para discussões sobre o mundo em que se vive relacionados com a cultura;
  • Politics – destinado para artigos sobre política, liberdade, governo e leis;
  • Media – destinado a comentários e revisões sobre os media;
  • News – destinado à publicação de informação actual;
  • Internet – destinado ao aspecto social e não ao tecnológico;
  • Op-Ed – destinado a artigos de opinião e discussão;
  • Fiction – destinado para publicaçãoo e discussão de textos narrativos e poéticos;
  • Meta – destinado à publicação de artigos sobre o próprio Kuro5Hin;
  • MLP (“Mindless Link Propagation”) – destinado para notas com sugestões de sítios onde os próprios links são a informação.

Overmundo

Overmundo é um projecto brasileiro que foi lançado em 2006 com o objectivo de criar novas formas de divulgação e produção cultural brasileira e das comunidades brasileiras fora do Brasil.

Página Inicial do "Overmundo"

Este sítio existe devido à colaboração dos seus utilizadores que para publicar precisam de estar registados com informações básicas, no entanto precisam do número CPF [1], ou então registar-se como estrangeiro. Toda a comunidade de utilizadores alimenta o sítio e a Equipa Editorial apenas interfere em ocasiões como, por exemplo, “postagens” ilícitas e/ou impróprias e conteúdos depreciativos e/ou ofensivos.

Os utilizadores registados têm uma página de perfil com as suas informações, colaborações, comentários, colaboradores favoritos e um espaço para fotografias.

Para colaborar o utilizador ou coloca o conteúdo directamente ou então coloca o conteúdo na “Edição Colaborativa” que fica visível durante 48 horas em que o utilizador poderá fazer ainda alterações e acompanhar aceitando ou não as sugestões sugeridas. Só passado esse tempo é que o conteúdo é publicado definitivamente.

A publicação dos conteúdos pode ser feita em várias secções:

  • Overblog – destinado a reportagens, entrevistas e críticas sobre a cultura;
  • Banco de Cultura – destinado à difusão online de obras culturais, como por exemplo, livros, discos, vídeos, imagens, podcasts, músicas, poemas, teses, filmes e fotografias;
  • Guia – destinado para dicas de serviços, lugares, comidas, festas e eventos da vida cultural das cidades;
  • Agenda – destinado a programas e eventos culturais do país;
  • Observatório – destinado a comentários editoriais da equipa do Overmundo, com posts sobre novidades do sítio, discussões sobre cultura e reflexões sobre as tendências da Web 2.0;
  • Fórum de Ajuda – destinado a tirar dúvidas específicas;
  • Overmixter – sítio para remixes de músicas que congrega remixes e samples licenciados sob licenças Creative Commons.

Wikinews

Wikinews é um projecto de uma agência de notícias aberta e livre, baseado num sistema Wiki, produzido por uma comunidade de colaboradores, e foi aberto em Novembro de 2004.

Página Inicial do "Wikinews"

Não há um controlo prévio sobre a publicação das notícias, e é a própria comunidade de colaboradores que corrige os erros e elimina os conteúdos que infringem um dos valores fundamentais: a Wikinews é sobre notícias; a Wikinews é focada, ou seja, as diferentes notícias devem ser focadas num único assunto num momento específico; a Wikinews é escrita num ponto de vista neutro; a Wikinews é factual, ou seja, não são artigos de opinião; a Wikinews é relevante, ou seja, os artigos reflectem eventos que têm impacto nas pessoas; a Wikinews é tanto global como local, ou seja, o artigo pode ser publicado independentemente do local onde ocorreu o objecto da notícia; e, a Wikinews é colaborativa, ou seja, um artigo não tem só um autor, toda a gente é convidada a participar e escrever, editar ou reescrever cada artigo para melhorar o seu conteúdo.

Os separadores no topo da página inicial permitem ao utilizador participar numa discussão aberta com outros colaboradores relacionada com a página inicial, verificar todo histórico de modificações e aceder ao código fonte.

Os utilizadores podem escrever uma notícia, editar as notícias de outros colaboradores, participar nas discussões que acompanham cada matéria, participar na política editorial e da própria manutenção do sistema.

Há várias secções existentes mas destaca-se a Newsroom onde os utilizadores podem verificar quais as noticias que estão a ser escritas no momento e verificar como podem colaborar no desenvolvimento daquela notícia. Além disso podem também aceder a recursos para o desenvolvimento das suas próprias notícias.

As notícias podem ser partilhadas enviando por eMail ou em redes de comunidades virtuais, como por exemplo, Facebook, Twitter, Buzz, Digg, Reddit, Delicious, etc...

Funcionalidades e outros webjornais

Em baixo estão listados exemplos de outros webjornais para cada uma das formas de participação descritas a seguir, exceptuando as que já foram descritas nos exemplos anteriores:

Há alguns webjornais em que:

  • o próprio utilizador produz a notícia que pode ser em texto, áudio, vídeo, fotografia ou SMS, como por exemplo o Minha Notícia;
  • se colabora colocando links interessantes que direcionam para outras páginas de Internet, como por exemplo o MetaFilter;
  • qualquer utilizador, independentemente de estar registado ou não, pode enviar por correio electrónico os erros encontrados numa notícia, como por exemplo o Yo Periodista;
  • se pode votar na notícia publicada consoante o interesse do utilizador que está a lê-la, como por exemplo o Sky News;
  • se pode votar nos comentários feitos pelos utilizadores, como por exemplo o Sky News;
  • se pode reagir à notícia escolhendo opções pré-definidas, como “amazing”, “inspiring”, “funny”, “scary”, “hot”, “crazy”, “importante”, “weird”, como por exemplo o The Huffington Post;
  • o utilizador pode participar numa sala de conversação consoante os temas do webjornal, como por exemplo o vc repórter;
  • se pode responder a uma votação, como por exemplo o Slashdot;
  • se pode ver uma galeria de fotografias enviadas pelos utilizadores relacionada com uma determinada notícia, como por exemplo o Eu-repórter;
  • há a integração com outras plataformas de comunidades virtuais na qual:
  • se pode seguir o webjornal através de outras comunidades virtuais como o Facebook, Twitter, como por exemplo o Daily Kos, ou mesmo no YouTube, como por exemplo o Boing Boing;
  • os utilizadores podem sugerir um tema e participar no seu depate, como por exemplo o JD;
  • o utilizador pode adicionar novos módulos e organizar a página do webjornal a seu gosto, arrastando os módulos para outros sítios da página, como por exemplo o Newsvine;
  • se pode mudar a cor do webjornal, como por exemplo o Centro de Mídia Independente;
  • se pode ver as estatísticas da notícia no que respeita ao número de visitas por hora e o número de partilhas feitas, como por exemplo o Yo Periodista;
  • se pode ver o ranking das reportagens (as últimas, as mais vistas, as mais comentadas, as mais partilhadas, as que estão na CNN, ou, as mais recentes, as das últimas 24 horas, as das última semana e as de sempre) e dos repórteres (os mais recentes, os que estão na CNN e as superestrelas, ou, por ordem alfabetica) através de um mapa, como por exemplo o CNN iReport.

Nesta wiki da SourceWatch estão listados vários webjornais participativos/colaborativos por país.

Análise

O jornalismo participativo e colaborativo desempenha um papel muito importante nas sociedades democráticas, pois trás às notícias várias perspectivas que se vão discutindo e o conhecimento de vivências próprias dos acontecimentos.

Depois da exploração realizada a diversos webjornais participativos e/ou colaborativos há uma forma de participação que é comum a todos os sítios: a possibilidade de comentar as notícias publicadas. Talvez seja neste aspecto que o maior número de pessoas esteja disposta e se sente mais à vontade para participar e dar o seu contributo dando a sua opinião sobre a notícia publicada.

Os webjornais que são mantidos actualizados apenas com a colaboração e o envio de notícias de utilizadores têm de adaptar uma estratégia que motive essa participação, dinamizando as tecnologias disponibilizadas no sítio.

Essa estratégia também passa muito por uma estratégia comunicacional para captar a atenção do utilizador, como por exemplo, o tipo de interacção que ele mais gosta, ter em atenção como é que os diferentes elementos da página estão dispostos e organizados, as cores utilizadas, etc. Também são aproveitadas as potencialidades que a Internet disponibiliza, tendo sempre como preocupação o utilizador, encontrando as melhores formas de o conquistar, de o convidar a participar e cooperar em grande escala na publicação de material jornalístico.

Se isso não acontecer, o webjornal acaba por perder interesse, pois fica desactualizado e cada vez mais abandonado – se não há notícias novas com alguma regularidade, perde o interesse por parte dos utilizadores, não só para a sua visita, como também para a sua colaboração.

Dos exemplos explorados, destaca-se o AgoraVox France e o CNN iReport, pelo maior número de funcionalidades de interacção e participação dos utilizadores. Há um grande destaque aos colaboradores e isso pode ser uma motivação para que estes participem cada vez mais, de diversas formas. Não só pelo envio de notícias, como pelos comentários realizados.

Com todos os dispositivos de comunicação que potencializam a actividade jornalística, como está listado na secção 4.2.5 Funcionalidades e outros webJornais, há que reorganizar a informação de uma forma a ser melhor utilizada.

O facto de alguns webjornais adaptarem a funcionalidade de se poder partilhar a notícia em outras plataformas de informação e comunicação ou redes sociais, faz que com também seja uma estratégia de Marketing, pois assim o nome do webjornal poderá chegar a mais utilizadores que até então desconheciam a existência daquele webjornal e comecem também eles a visitá-lo e a participar nele.

Mais reflexões e análise de tecnologias e formas de participação poderão ser lidas na secção 5 Meios para a Participação e na secção 6 Impactos, Reflexões & Outras Questões

Meios para a Participação

As ferramentas que permitem a participação nos meios de comunicação social, e a forma como os utilizadores se apropriam delas, leva-nos a colocar uma questão inicial: terá sido a necessidade sentida em participar que levou ao surgimento de plataformas que o permitam, ou terão sido estas a originar nos utilizadores a necessidade/vontade de comentar, editar e criar?

Para tentar responder a esta questão seguir-se-ão os parâmetros que jornalistas e investigadores utilizam quando pretendem construir uma notícia: obter a resposta às questões quem, o quê, quando, onde, porquê e como?

Assim, quem participa?

Gráfico 1: Actividades relacionadas com conteúdos gerados pelo utilizador, por idade (%) Ficheiro:Gráfico.jpg (CARDOSO e ESPANHA, 2010: 29)

Ao analisar-se sucintamente a estatística apresentada, conclui-se que o público que mais participa são pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos de idade. Para além disso, através de outro gráfico disponibilizado pelo mesmo estudo, verifica-se que são os homens que mais utilizam as formas de participação e comunicação que têm ao seu alcance na internet.

O que se participa/transmite?

Esta é uma questão um pouco complicada de responder, uma vez que não foi realizado nenhum estudo aprofundado sobre este assunto. No entanto, tendo em consideração a resposta que será dada à questão "onde", e utilizando um pouco o conhecimento comum, parte-se do princípio que o cidadão participa mais através de comentários realizados a notícias, ou respondendo a outros feitos anteriormente por alguém. Desta forma, o conteúdo da participação, num nível nacional, é, na maior parte dos casos, realizado na forma de comentários pessoais, como por exemplo, no jornal O Público, edição on-line, a notícia Sócrates censura o aproveitamento político à custa da pobreza, do dia 18 de Dezembro de 2010, obteve 37 comentários; outro exemplo é o Diário de Notícias on-line, no qual a notícia Quadros do BPN pagos para não fazer nada, do mesmo dia da anterior, teve 68 comentários. Pode supor-se que o que levará as pessoas a comentar ou a participar está, muitas vezes, relacionado com a forma como vivenciam o que lêem, a familiaridade que sentem e também a facilidade com que, desta forma, podem dizer o que sentem e, em alguns casos, manter o anonimato, o que não acontece, por exemplo, se utilizarem o facebook ou o twitter para apresentar algum tipo de reacção.

Quando se participa?

Voltando às estatísticas:

Gráfico 2: Utilizações da Internet: Conteúdos Gerados pelo Utilizador (%) Ficheiro:Gráfico_2.jpg (CARDOSO e ESPANHA, 2010: 27)

Percebe-se que "nunca" é a resposta mais dada pelos inquiridos, no entanto, e embora numa percentagem muito pequena, algumas pessoas participam com uma frequência semanal ou diária. O que poderá significar que quem intervém o faz ao longo do dia, quer seja no seu horário de trabalho ou após esse período. Como se referiu anteriormente, somos cada vez mais pessoas ligadas a ecrãs e durante cada vez mais tempo.

Daí que surjam novos modelos de negócio, para dar resposta às necessidades sentidas pelos utilizadores, como por exemplo, a versão para tablets que já vários jornais disponibilizam. No exemplo do jornal Público, a versão é gratuita durante dois meses, após os quais é necessário comprar. É também já possível comprar edições de jornais diários através da Amazon, e ler no e-book reader.

Onde se participa?

Bastante relacionada com as questões anteriores, e aquela que tem uma pertinência fundamental para o âmbito deste trabalho, é a resposta ao "onde é realizada a participação, comunicação, intervenção?" Não interessa tanto o espaço físico em que tal acontece (casa, trabalho ou escola), mas mais o espaço virtual.

Hoje em dia, a maior parte dos blogs, portais de internet de meios de comunicação social (jornais, revistas, televisões, rádios, etc.) e portais de redes sociais permitem a intervenção de cada um de nós enquanto cidadãos. Como já referido, deixámos de ser os cidadãos passivos de anteriormente, para passarmos a ser, não apenas activos, mas, em muitos casos, também proactivos Dipity, Newsvine, Wikipedia, onde se valoriza a nossa capacidade de comentar as notícias ou a informação, ou de as votar, mas, igualmente, de as criar, escrevendo para sítios da internet que permitem a participação integral dos cidadãos, por vezes, sem se verificarem os conteúdos.

Consequentemente, nos dias de hoje, é possível participar em qualquer página de internet ou portal, aliás, os seus autores tentam fomentar isso mesmo (já veremos como), um nível de participação cada vez mais elevado, porque isso incentiva a uma nova procura do sítio, verificar respostas/comentários ao conteúdo colocado, alterações que possam ter sido realizadas após algum feedback seu.

Surge, então, a necessidade da resposta à pergunta porque se participa?

Também nesta fase, a única tentativa que se fará é de apresentar suposições, na medida em que, é complicado afirmar quais as razões que levam todas as pessoas a participar ou intervir de alguma forma num sítio da internet, ou mesmo encontrar motivos para as que decidem não participar.

Participar num blog, escrever um comentário a uma notícia, votar num inquérito que está a decorrer on-line, "ligar-se" e comentar ou "gostar" de algo que está a "seguir" no facebook, entre muitas outras formas de mostrar a sua presença, deixa, acima de tudo, uma marca da pessoa que participou e das suas opiniões acerca do assunto.

Por esta ordem de ideias, uma das razões pelas quais os cidadãos participam pode estar relacionada com o facto de isso os fazer sentirem-se como parte integrante de uma comunidade, ainda que virtual. Algo que antes acontecia era comentar-se algo sem que isso tivesse repercussões globais, ouviam-nos as pessoas que nos rodeavam, podiam, eventualmente, comentar connosco, mas, após uns minutos ou horas de discussão, o assunto não tinha continuidade. Com as potencialidades da internet, os comentários podem ter respostas durante semanas, assim como ler um blog e comentar os seus posts, faz as pessoas sentirem-se familiarizados com a pessoa que escreve, ainda que, tendo em consideração a forma como estamos habituados a conviver presencialmente com os que nos rodeiam, essa pessoa seja um estranho.

Como referido, a participação na internet tem agora repercussões a nível global, ou seja, temos agora a capacidade de intervir localmente, ainda que estejamos a ser lidos, ouvidos ou seguidos à escala global, é a designada glocalização (Robertson, Hampton, Wellman, Bauman, 1990)). O grau de importância que isso nos confere pode ser uma motivação que nos impele a participar, um exemplo deste fenómeno é o Wikileaks, alguém que considerou pertinente fornecer informação, utilizando, para isso, os meios de comunicação social com maior tiragem e globais, com a pretensão de fazer surtir efeitos ao nível local.

Então, e como se participa?

Conforme analisado nos capítulos A participação em contexto nacional e em contexto internacional, os meios à disposição dos utilizadores para que participem são hoje muito variados, e estão presentes em quase todos os portais e páginas de internet dos meios de comunicação e informação social.

As redes sociais (MySpace, Youtube, Twitter e Facebook) permitem "seguir" as novidades, comentar as notícias e informações, "gostar" e sugerir aquele grupo a um amigo, para além disso, em alguns casos, o chat é também utilizado para conversas em tempo real. Algumas rádios permitem que os seus ouvintes assistam ao que se passa no estúdio, em directo, via Webcam e ouvir a emissão em directo, através de Streaming.

A subscrição de feeds RSS de informações de determinados portais de notícias é também uma grande potencialidade, uma vez que, a partir dos leitores de RSS somos capazes de enviar via e-mail para alguém, comentar, partilhar, entre outras funcionalidades.

Em quase todos os portais de informação, nacionais e internacionais, é hoje possível escrever um comentário/feedback a departamentos específicos; participar em concursos via e-mail e responder a questionários on-line.

Em portais onde o objectivo é disponilizar vídeos, como por exemplo, portais de informação televisiva (SIC Notícias ou CNN), aqueles podem ser partilhados através de links facultados, da mesma forma que permitem que se aceda a conteúdos on-line sem ser necessário aceder ao site (Widgets) ou através de dispositivos móveis (telemóveis, tablets, etc.). Em alguns casos, os utilizadores podem enviar, via e-mail, as histórias, vídeos e fotos. E ainda participar, através de comentários no site, em programas específicos.

Alguns exemplos das ferramentas que acabaram de se mencionar podem também ser encontradas na rádio TSF

Ficheiro:TSF.JPG

no jornal Público

Ficheiro:Público.JPG

no portal Dipity

Ficheiro:Dipity.JPG

As potencialidades são ilimitadas, como já se referiu, mas será que surtem o efeito desejado? Será que a colaboração e a participação permitem que seja realizada de forma crítica, deixando uma marca positiva no que se diz e comenta? Claro que é complicado responder a esta questão e até subjectivo. Mas é, sobretudo, importante que as pessoas não percam o sentido de existência do outro. Não nos podemos esquecer que do outro lado do ecrã está uma pessoa a ler o que dizemos, que pode muito bem ser nosso familiar, amigo, colega de trabalho, patrão ou futuro patrão e que essa participação pode ter repercussões positivas e negativas. Não devemos encarar esse facto como limitador, mas antes como uma potencialidade a explorar.

Relativamente às tendências, pode afirmar-se que 2010 foi o ano do desenvolvimento de notícias e informação para dispositivos móveis (telemóveis, tablets e notebooks), assim como a integração com as redes sociais. Para 2011, as previsões, conforme anunciado no portal Mashable (também ele totalmente colaborativo e participativo) deverão seguir o mesmo caminho, no sentido da reafirmação da posição iniciada, no entanto, um dos aspectos mais significativos poderá ser o crescimento da TV interactiva, o que não deixa de ser curioso, sobretudo quando consideramos que o caminho vai no sentido dos gadgets portáteis e não fixos.

Tentando responder à questão inicial, é um pouco como a história de quem nasceu primeiro, se a galinha ou ovo. Muito provavelmente o que fez crescer a vontade ou necessidade de participar nos utilizadores foi a existência desse factor, e talvez o que tenha feito surgir essa possibilidade de intervir tenha sido a necessidade de ter um feedback dos utilizadores.

Impactos, Reflexões & Outras Questões

- Em entrevista à Lusa em Setembro, Helder Bastos, antigo jornalista e actual docente na área da comunicação na Universidade do Porto considerou que a transição de jornais do papel para o online em Portugal não assume particular relevância, tendo afirmado que “há um ou outro caso na imprensa regional ou local, mas sem escala para se analisar este fenómeno”, revelando assim uma visão pouco optimista perante tais cenários. “Quando um jornal em papel acaba e fica tudo online, o que geralmente acontece não é integração mas desintegração das redacções” e “não se pode falar de fusão mas de perda de jornalistas, aumentando o índice de desemprego na classe", acrescentou.

O investigador colocou mesmo um cenário hipotético: “Imagine-se que um grande diário português com 80 ou 100 jornalistas na redacção tradicional, decide acabar com a edição impressa. Não irá direccionar todos os jornalistas para o online, porque não há retorno financeiro que sustente um projecto desses, nem nada que se pareça”.

- Quem partilha da opinião de que “o jornalismo digital faz de tudo menos dinheiro” é o director do jornal alemão “Die Zeit”, Giovanni Di Lorenzo, justificando que os dois últimos anos do periódico que dirige foram “os melhores da sua história”, apesar das propaladas crises da economia mundial e do jornalismo impresso. Em entrevista ao “El País”, o responsável explicou que "o truque foi estudar em detalhe as necessidades dos leitores e ignorar todos os conselhos dos consultores de meios, continuando a apostar em artigos extensos, documentados, sérios e até com linguagem considerada difícil". Para Giovanni Di Lorenzo, o futuro dos jornais em papel reside “na orientação e no aprofundamento” dos temas, bem como no combate à falta de credibilidade e à perda de qualidade, pois a Internet é apenas uma e não a única causa da crise na imprensa escrita.

- Segundo o editor do Saturday do The Times, de Londres, George Brock, “A pergunta mais importante que o consumidor de notícias e opinião faz a si mesmo é também a mesma de sempre: “posso confiar nesta fonte”? Um estudo de opinião feito junto de consumidores de diferentes media pelo jornal francês independente 20 minutes, revela que dois terços dos respondentes consideraram que as notícias publicadas em veículos participativos on-line “não podem ser consideradas notícias” e duvidam da “veracidade das notícias desses media”.

- Será razoável questionar que alterações o jornalismo-cidadão alojado e estimulado pelos ciberjornais, pode trazer para o incremento da qualidade do jornalismo produzido pelos profissionais daqueles meios de comunicação? Ou será que os jornalistas olham o jornalista-cidadão apenas como um leitor mais exigente?

- Com a emergência do jornalismo digital mudou de forma significativa não só o sistema de produção de notícias como as relações entre todos os actores envolvidos nas diversas etapas do trabalho jornalístico, o que torna difícil a imposição de padrões deontológicos a todos os membros de uma comunidade ligada a uma publicação jornalística. A consolidação do jornalismo nas redes digitais pressuporá o reconhecimento da necessidade de uma ruptura com as teorias éticas e deontológicas convencionais e o estabelecimento de novas formas de compromisso?

- Virão a propósito algumas ainda que curtas notas, relativamente ao espaço que um leque alargado de blogues tem vindo a ocupar, em contraponto à colaboração clássica dada pelos leitores à imprensa regional protuguesa e genericamente referenciada em "artigos de opinião". Não é difícil comprender, que face à notória inadaptação de inúmeras publicações à introdução de processos de inovação tecnológica, seja por razões económicas, seja pela carência de quadros qualificados, também esta razão afinal dependente da primeira, alguns blogues assumem um papel interventivo e de referência na dinâmica social à escala local e regional, quais publicações generalistas, aditadas de participação e colaboração qualificadas. As redes constituem a nova morfologia das sociedades e a difusão da sua lógica modifica substancialmente as operações e os resultados dos processos de produção, experiência, poder e cultura. (CASTELLS, 2000). Com questões éticas e deontológicas de difícil digestão pelo meio? Concerteza!

- E já agora, porque não uma visita (ainda que rápida) a um interessante estudo sobre o perfil sociológico do jornalista português? [7].

Conclusões

O mundo está a mudar em diferentes vertentes e o campo da mediatização está claramente imerso num processo de adaptação, acompanhando essas mudanças e em muitos aspectos, definindo a própria agenda.

Em sede de conclusões e permitindo-se uma ainda que incipiente participação opinativa e/ou apreciativa, poderíamos concluir que o poder, ou parte significativa dele, está a ser partilhado entre os profissionais que produzem as notícias, sejam eles jornalistas ou blogueres e os que as consomem. Os cidadãos têm mais opções, repartem-se numa lógica participativa no espectro dessas opções e o resultado final poderá não ser, de facto, o surgimento de um discurso melhor ou pior, mas de um discurso diferente.

A tecnologia, omnipresente até nos países mais pobres, não apenas possibilita um fluxo mais livre de informação, como encoraja os cidadãos a exercer pressão através de uma participação susceptível de poder influenciar as próprias transformações sociais.

Na era da convergência, os media noticiosos procuram adaptar-se a diversas dimensões, nomeadamente, ao nível tecnológico, empresarial, profissional, dos conteúdos e muito na relação com as audiências. Implicações que estão a produzir alterações nos processos de produção e de difusão de conteúdos jornalísticos, bem como nos processos de recepção das mensagens noticiosas por parte dos consumidores.

Por outro lado, a convergência tecnológica permite a participação, não é necessário deixar de trabalhar para se fazer o comentário a uma notícia que acabamos de ler, utilizamos precisamente a mesma ferramenta, algo que torna as nossas intervenções quase ilimitadas.

Veja também

Links externos

Notas e Referências

  1. CPF, no Brasil, significa “Cadastro de Pessoas Físicas”. É uma base de dados que armazena informações cadastrais dos contribuintes e dos cidadãos que se inscrevem voluntariamente no cadastro.

Bibliogafia

BERDARDINI, G. (2009). Jornalismo Colaborativo: uma análise sobre o conteúdo colaborativo do Overmundo. Baurau: Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho".

BOWMAN, S. e WILLIS, C. (2003). We Media: How audiences are shaping the future of news and information. California: The Media Center.

CARDOSO, G. e ESPANHA, R. (2010). A Utilização da Internet em Portugal 2010. Lisboa: LINI-ISCTE.

CASTELLS, M. (2000). A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura – A Sociedade em Rede. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

DEUZE, M. (1999). ‘Journalism and the Web: An analysis of skills and standards in an online environment’. Gazette, 61(5): 373-90.

JENKINS, H. (2009). Cultura de Convergência. 2.ª Edição. São Paulo: Aleph.

LEMOS, A. (2005). Cibercultura e Modernidade. A Era da Conexão. In XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

LÉVY, P. (1999). Cibercultura. São Paulo, Editora.

PAVLIK, J. (2001). Journalism and New Media. New York: Columbia University Press.

TRASEL, M. (2007). A Pluralização no Webjornalismo Participativo: uma análise das intervenções no Wikinews e no Kuro5Hin. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul.