De WikiCampus
Esta wiki é a primeira de várias desenvolvidas no âmbito da unidade curricular Media Participativos, pelos alunos Daniela Graça, Pedro Ferreira e Rui Rodrigues, do Programa Doutoral em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais. O objectivo deste trabalho é aprofundar o conceito Media Participativos no âmbito da Educação. Serão abordados os principais conceitos relacionados com a temática Media Participativos na Educação, e será explorada, de forma mais específica, a dimensão PLEs (Personal Learning Environment). A estrutura global desenvolver-se-á por quatro pontos: (1) do LMS ao PLE - Evoluções e Tendências, (2) estado da arte relativo à definição de PLE, (3) Principais implementações e desenvolvimentos até à data, e (4) Desafios futuros na utilização de PLE.
Tabela de conteúdo |
Conceitos-chave
Cognição Distribuída, Connectivism, Inteligência Colectiva, Literacia da Informação, Literacia dos Media, Learning Management System (LMS), Nativo Digital, Personal Learning Environment (PLE), Navegação Transmedia
Introdução
“If it were possible to define generally the mission of education, it could be said that its fundamental purpose is to ensure that all students benefit from learning in ways that allow them to participate fully in public, community, [Creative] and economic life.” New London Group (2000)
É cada vez mais evidente que a sociedade actual é movida e moldada pelas constantes mudanças tecnológicas. Não obstante a essas mudanças, a grande evolução encontra-se patente na relação entre a tecnologia e o utilizador. O utilizador desempenha uma função preponderante neste processo uma vez que tem um papel activo na construção dos conteúdos (Cultura Participativa). Efectivamente, o aparecimento da Web 2.0 trouxe consigo um novo conceito de utilizador: o prosumer (Tapscott & Williams, 2008), o utilizador que não só consome conteúdos como também os produz. Desde que se identificou esta mudança de paradigma, diversos autores têm-se apoiado no conceito de cultura participativa como sendo o principal motor na participação social e na procura do conhecimento. Cultura (participativa) na qual o crescente volume de contribuições permite uma maior conexão social e cujos produtores de conteúdos se preocupam com o que outros consumidores pensam sobre as suas contribuições (Jenkins et al., 2009). Apesar da definição do conceito nativo digital – indivíduos que nasceram e cresceram com a presença constante das novas tecnologias –, o que se verifica é que o factor relevante na análise do papel das tecnologias na actualidade está na contribuição dos intervenientes através das diversas tecnologias onde a divisão digital não se verifica nos indivíduos sem acesso a elas, mas naqueles que contribuem para uma troca activa de conhecimentos, em detrimento daqueles que preferem o papel passivo (Jenkins et al., 2009).
Os Media Participativos têm um papel fundamental na contribuição e dinamização de processos tanto comunicativos como de aprendizagem. A tecnologia tem mudado substancialmente a forma como a educação é pensada e planeada. As aplicações Web 2.0 disponibilizaram um vasto leque de possibilidades para as instituições de ensino, contribuindo com novas ferramentas a serem potencializadas quer nas salas de aula quer no ensino a distância (Rollett et al., 2007), e por conseguinte uma maior dinamização no processo participativo na aprendizagem. Aliado a estas questões, encontram-se patentes os conceitos de Literacia dos Media e de Literacia da Informação. É importante que a evolução tecnológica seja acompanhada pela capacidade e habilidade dos intervenientes na relação de aprendizagem (professores, alunos) em executar e desenvolver determinadas tarefas e funções para que o uso das tecnologias seja dinâmico, eficaz e potencializador de troca de conhecimentos.
Para além do já referido, a relação entre Media Participativos e Educação traz novos contornos e novas potencialidades para o processo ensino-aprendizagem. A capacidade de um dos elementos (aluno ou professor) poder interagir significativamente com as tecnologias (Cognição Distribuída'), a capacidade de partilhar conhecimentos para um objectivo comum (Inteligência Colectiva), bem como a capacidade de acompanhar os fluxos de informação e conhecimento pelas diversas plataformas (Navegação Transmedia), são aspectos essenciais na relação comunicacional e de aprendizagem entre aluno-professor, bem como na relação entre estes e as tecnologias. É assim preponderante que tanto aluno como professor estejam cientes das mudanças nas práticas de ensino, e das alterações que a relação destes sofre com a influência das tecnologias. O ensino é cada vez mais activo e dinâmico, sustentado na colaboração, conexão e relação de aprendizagem (Connectivism).
Acompanhar o desenvolvimento dos processos educativos exige perceber a evolução nas ferramentas de ensino desde o surgimento e evolução do Learning Management System (LMS) até ao aparecimento do Personal Learning Environment (PLE). Os próximos pontos têm o intuito de perceber as potencialidades de uma aprendizagem centrada no aluno, sendo tecidas algumas considerações sobre o estado da arte relativamente ao conceito PLE, bem como as principais ferramentas tecnológicas utilizadas, colmatando com alguns desafios e obstáculos na utilização de PLE. Por fim, será realizada uma reflexão crítica, demonstrando as potencialidades entre os PLEs e os Media Participativos, e como estes podem contribuir para a melhoria dos processos de aprendizagem.
Do LMS ao PLE - Evoluções e Tendências
Nos últimos anos os cenários de ensino e aprendizagem têm evoluído consideravelmente, sobretudo com o crescimento exponencial das novas tecnologias. Graças a tal crescimento, surgiram os Learning Management System (LMS). O desenvolvimento destes sistemas permitiu que o paradigma educativo ultrapassasse as barreiras físicas da sala de aula, conferindo ao ensino e à aprendizagem uma maior flexibilidade e acesso a ferramentas outrora inimagináveis (Knight, Severance & Borgman, 2010). Com o aparecimento da Web 2.0, onde a Cultura Participativa fomenta a colaboração e partilha de conhecimentos, os LMS tentaram acompanhar esse crescimento - com o advento de algumas ferramentas de Media Participativos -, todavia, como os LMS se centram numa aprendizagem focada na instituição, e não no aluno, foi necessário repensar o paradigma da educação e da aprendizagem, onde o foco deveria pertencer ao aluno e às contribuições pessoais do mesmo. (Knight et al., 2010).
Nesse contexto, surgiu o conceito de Personal Learning Environment (PLE). Segundo Harmelen (2006), o PLE caracteriza-se por ser um sistema de aprendizagem focado apenas no utilizador, onde este tem uma panóplia de recursos de aprendizagem, e no qual quer aluno quer professor têm acesso aos conteúdos disponibilizados. Assim, o principal intuito de um PLE é permitir ao utilizador reunir e organizar uma diversidade de experiências e conteúdos para a sua aprendizagem ao longo da vida (Lubensky, 2006). Para além disso, o aluno deve poder definir e gerir os seus objectivos de aprendizagem.
O conceito de PLE surge em resposta a algumas das limitações resultantes do LMS, que pode ser visto como limitador no processo de ensino e de aprendizagem, dado que as instituições de ensino vêem o PLE como um risco para a instituição e não como uma vantagem tanto para alunos como para professores (Lubensky, 2006). Parece ser necessário repensar o processo de ensino conciliando a aprendizagem informal, a autonomia do aluno e as questões institucionais. Esta complementaridade só é possível caso a aprendizagem seja vista como um processo onde cada vez mais o aluno tem um papel central, onde os Media Participativos têm um contributo preponderante para essa aprendizagem. Assim, é pertinente sublinhar o conceito Connectivism, já que a aprendizagem é um processo criado através das conexões realizadas dentro de uma rede, em que a Inteligência Colectiva e a Cognição Distribuída surgem como factores fulcrais para uma aprendizagem mais colaborativa e social.
Não obstante esta temática ser cada vez mais pertinente, revela-se ainda difícil centralizar e aplicar o conceito de PLE ao ensino devido, essencialmente, às diferentes perspectivas no seu uso.
Personal Learning Environment (PLE)
Nos pontos seguintes reflectir-se-á sobre o conceito de PLE através de uma abordagem ao estado da arte, às principais implementações e desenvolvimentos de PLE na educação, bem como aos desafios e obstáculos futuros na utilização de PLE. Assim, o conceito de PLE será abordado tanto numa dimensão conceptual, como numa dimensão tecnológica, tentando evidenciar assim o contributo dos PLEs para a melhoria no processo de ensino/aprendizagem centrado no aluno.
Estado da Arte
A ideia de Personal Learning Environment (PLE) surge pela primeira vez em “Lifelong learning: the need for portable personal learning environments and supporting interoperability standards”, onde os autores Olivier & Liber (2001) se referem à integração dos contextos institucionais de aprendizagem com um modelo peer-to-peer que se centra na aprendizagem individual e ao longo da vida.
PLE é o produto da convergência dos factores que cunharam a sociedade em resultado do desenvolvimento tecnológico e que provocaram mudanças significativas na educação e na concepção da aprendizagem (Mota, 2009). Para George Siemens (2008) o PLE é um produto do desenvolvimento tecnológico e da alteração do papel do utilizador no processo de criação e divulgação de conteúdo, características inerentes à Web 2.0. E, segundo Mota (2009), os PLE surgem para responder às novas solicitações e particularidades dessa sociedade transformada; solicitações e particularidades relativas ao e-Learning 2.0, ao novo lugar do utilizador, ao novo formato de criação e divulgação de conhecimento, à aprendizagem constante e ao longo da vida, ao crescente valor da aprendizagem informal, e à potencialidade das redes sociais.
A ideia de um sistema de aprendizagem em rede, ao longo da vida, e independente de instituições foi abordada por Illich (1970) em Deschooling Society. Illich defende que um bom sistema educacional deve ter três objectivos: (1) fornecer acesso aos recursos disponíveis a todos aqueles que querem aprender em qualquer altura das suas vidas; (2) possibilitar a todos que queriam partilhar o próprio conhecimento encontrar todos aqueles que tenham interesse em aceder ao mesmo, e (3) permitir a todos os que queiram partilhar uma questão ao público que o façam.
“The alternative to dependence on schools is not the use of public resources for some new device which "makes" people learn; rather it is the creation of a new style of educational relationship between man and his environment.” (Illich, 1971, p. 72)
O contexto actual desenhado pela Web 2.0 parece ser o cenário perfeito para o desenvolvimento de um sistema de ensino pelo menos aproximado do idealizado por Ivan Illich há cerca de quatro décadas. O e-Learning surgiu como a resposta indicada a essa ideologia mas a formatação dos Sistemas de Gestão da Aprendizagem (Learning Management Systems - LMSs) e dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (Virtual Learning Environments - VLEs), ainda “agarrados” à visão tradicional do ensino, impulsionaram e incrementaram a necessidade de uma solução que se enquadrasse melhor às novas necessidades do sistema de aprendizagem.
Aceite a noção de que a aprendizagem sofreu uma alteração estrutural e que o seu foco de controlo está no poder do aluno, e de que o caminho que colmata as falhas existentes para o sucesso deste cenário é o PLE, identificam-se as características ainda em falta na tecnologia existente: várias plataformas versus plataforma única – a aprendizagem ao longo da vida beneficiaria de um sistema ou plataforma única que simplificasse o processo de aprendizagem do utilizador, afastando-o da necessidade de ter que navegar por várias plataformas de ensino quando muda de ambiente de aprendizagem que requer uma maior capacidade de adaptação e treino –, concentração dos conteúdos e da informação sobre o percurso realizado pelo utilizador – os autores Olivier & Liber identificam o registo do percurso de aprendizagem do aluno como sendo fundamental pelo sentido de localização no processo (presente) e no caminho a seguir (futuro) –, e a dependência da ligação à rede – a condição de ligação constante à tecnologia durante o processo de aprendizagem pode ser um entrave ao mesmo e à respectiva democratização, por factores económicos e de qualidade do serviço de ligação.
“The most fundamental is the need of the lifelong learner to have their own readily accessible progress file, which records, not only their past achievements, but also their current state and future plans.” (Olivier & Liber, 2001, p. 2)
Van Harmelen (2006) identifica três pontos motivação para os PLE: (1) a necessidade de um sistema que disponibilize um interface transversal aos sistemas de e-Learning das diferentes instituições, e que permita que a manutenção das informações seja mantida em todos os "lugares", com o objectivo de possibilitar a aprendizagem ao longo da vida; (2) a concentração na abordagem pedagógica que resulta do facto de o controlo da aprendizagem estar no domínio do utilizador; e (3) a necessidade dos utilizadores precisarem esporadicamente de realizar actividades de aprendizagem em modo off-line.
No seguimento da definição destas características, Van Harmelen nomeia as dimensões que considera necessárias à definição e construção de um PLE. Considera que a vertente centrada no utilizador exige especial atenção às dimensões pedagógicas, de personalização e de controlo, e que devem ser consideradas três opções:
- colaborativo/não colaborativo (que determina a profundidade da participação/colaboração do utilizador);
- fechado/aberto (um sistema fechado dificilmente se estende para lá de si mesmo, há quem acredite que é possível "construir" um PLE a partir da utilização de variados serviços Web apesar de a interoperabilidade da aplicação se reduza ou não seja totalmente aproveitada); e,
- personalizável/estanque (a medida em que um PLE pode ser personalizado pelo utilizador ou estanque), e o centro de controlo (a mudança do controlo para o utilizador retirou aos professores e instituições o controlo dos recursos).
O PLE é uma ferramenta de aprendizagem cujos contornos estão ainda em processo de definição. As possibilidades de significação, embora desenvolvidas a partir de eixos estruturais comuns – da aprendizagem ao longo da vida e dependente da acção do utilizador –, variam entre uma posição mais orientada à ideia de pertença a um local virtual, a um PLE específico, e uma ideia de PLE que se compõe de diversas ferramentas, dissociadas entre si, mas cuja utilização por parte do individuo as aglomera e transforma num PLE.
“Why do we need a PLE when we already have the Internet? The Internet is my PLE, ePortfolio, VLE whatever (...) I have a strong online ID and very extensive and personalised learning environment.” (Blackall, 2005)
“The majority of people will NEVER have an internet presence. Community environments like elgg allow for them to be noticed, and interacted with, by their peers. It's a safe, controllable environment, away from the chaos and uncertainty that is that rather long list of tools listed. The PLE and to a lesser extent the VLE/LMS provide some security, some much needed structure and most importantly guaranteed interactivity.” (Cormier, 2006)
Implementações e Desenvolvimentos
O grande objectivo de um PLE é fornecer ao indivíduo formas de poder promover e fomentar o crescimento e aprendizagem pessoal ao longo da vida. Nesse sentido, apesar dos PLEs poderem ser entendidos como ferramentas, o conceito de Personal Learning Environment vai para além disso, já que o indivíduo tem opção de escolha e flexibilidade para poder moldar a aprendizagem aos seus interesses (formal e informal). Assim, apesar dos PLEs serem mediados por ferramentas tecnológicas, é importante ressalvar que a grande vantagem deste "serviço" é o aluno ter o controlo do percurso de aprendizagem, de usufruir da partilha e desfrutar da colaboração entre ele e os restantes intervenientes no processo de ensino-aprendizagem (Lubensky, 2006).
Listados abaixo, estão implementações de PLEs, de referência relevante no contexto deste estudo.
Implementações
Para além de alguns exemplos de implementação de Personal Learning Environment (PLE) é importante referir alguns diagramas/modelos, dado que o conceito de PLE não assenta apenas numa componente tecnológica mas sim em práticas participativas, com o intuito de promover a aprendizagem do indivíduo. São assim referidos, através da hiperligação abaixo, alguns diagramas de Modelos de PLE.
Para além dos exemplos referidos existem outros casos que expressam o conceito de PLE de uma forma ad hoc. O caso mais ilustrativo diz respeito ao Web Desktop, que consiste numa aplicação agregadora de serviços Web 2.0. O conceito e funcionalidades referidas não se encontram muito distantes do objectivo de um PLE, uma vez que através destas aplicações, definidas pelo utilizador, este pode mostrar o seu trabalho/experiências e conectar-se a outros utilizadores (aprendizagem informal). Alguns dos exemplos de Web Desktop são o caso do Flock, icloud eyeOS e NetVibes.
A constante "apropriação" da Internet por parte do utilizador, e por conseguinte dos Media Participativos, torna-se cada vez mais uma prática comum na educação e no percurso de aprendizagem. Os exemplos aqui referidos têm o objectivo de fazer reflectir sobre um novo paradigma onde o aluno tem ao seu dispor novas ferramentas para lidar com a informação e o conhecimento, e onde a tecnologia tem um papel essencial na forma como o indivíduo comunica, adquire e apreende conteúdos (Connectivism). Assim, a utilização destas ferramentas em contexto educativo, mais concretamente num cenário de PLE, pretende fomentar e potencializar o desenvolvimento da comunicação em torno da colaboração e partilha entre os vários intervenientes no processo de ensino-aprendizagem.
Desafios e Obstáculos Futuros
Os Personal Learning Environment (PLE) são ainda um espaço onde se procura essencialmente consensos, quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista educacional. No entanto Attwell (2006) afirma que o futuro dos PLE se configura mais consistente/seguro do que qualquer Learning Management Systems (LMS), apresentando vantagens como a presença social, capacidade e velocidade de inovação e a colectividade aberta como as grandes "bandeiras" dos PLE. Deste modo, importa perceber quais serão os desafios e os obstáculos futuros para a afirmação dos PLE.
No que concerne aos desafios Wilson et al. (2007) refere cenários de coexistência entre os PLE e os LMS. Em primeira instância, os PLE ficariam com o domínio do ensino informal enquanto que os LMS continuariam com predominância no ensino formal. Um outro cenário possível seria a cedência das estruturas internas dos LMS por forma a permitir a interoperabilidade com os PLE. Assim, os utilizadores não têm de aprender as linguagens e interfaces de cada componente, como também são "obrigados" a entender a forma como se relacionam com os diversos componentes. Num último cenário os LMS tentarem recolher elementos constituintes dos PLE.
Um outro desafio é proposto por Attwell (2006) que salienta que, para que seja possível uma evolução significativa dos PLE, é importante que a aprendizagem seja centrada no indivíduo. O mesmo poderá, desta forma, assumir o controlo dos seus processos de aprendizagem. Não há dúvida que os avanços da tecnologia permitirão um conjunto de PLE com melhor qualidade daqueles que hoje existem, assim as instituições de ensino superior serão aquelas que terão uma maior capacidade de apoiar uma aprendizagem centrada nos processos de formação desencadeados pelos alunos (Attwell, 2006).
Existem igualmente alguns obstáculos que são importante para este tipo de análise, na medida em que podem mostrar possíveis fragilidades que merecem reflexão. Se olharmos para uma ferramenta como uma nova linguagem que necessita de tempo de apreensão, a multiplicidade de ferramentas que compõem os PLE aumentam a complexidade geral para os utilizadores (Martindale et al., 2009). Assim os utilizadores não têm de aprender as linguagens e interfaces de cada componente, como também são "obrigados" a entender a forma como se relacionam dos diversos componentes. Sclater (2008) já tinha descrito a dificuldade do processo de interacção entre os múltiplos contextos de aprendizagem e as interfaces.
Aquilo que acima foi apontado como um desafio, pode também assumir um carácter improvável, fala-se pois da interacção entre LMS e PLE. Tal facto prende-se com alguns LMS terem uma vertente comercial e assim não estarem dispostas a proporcionar uma maior flexibilidade no controlo do ambiente de aprendizagem, centrado no aluno. É do interesse dos detentores comerciais dos LMS continuar a ter o seu domínio criando, caso seja necessário, as suas próprias redes de acção que permitam a construção de redes sociais, partilha de arquivos e criação de portfolios electrónicos - ePortfolios - (Lubensky, 2006).
Sclater (2008) chama atenção, ainda, para o perigo da suposição que reflecte que os alunos já estarão preparados para serem responsáveis pela gestão dos seus conteúdos no seu ambiente de aprendizagem. O mesmo autor levanta dúvidas sobre a conciliação dos PLE com elementos fundamentais que constituem a educação formal como os horários, as classificações ou os programas disciplinares.
Por último as questões de propriedade intelectual e gestão de direitos digitais é outros dos obstáculos que se configuram no caminho dos PLE. Enquanto nos LMS os conteúdos estão confinados a um grupo restrito e definido, no caso dos Personal Learning Environment (PLE) estes parâmetros não estão ainda bem definidos (Lubensky, 2006).
Em suma e tendo em conta todas as leituras levadas a cabo para a realização deste trabalho, afigura-se uma lógica de interacção/integração para entre os PLE e os LMS, nomeadamente na realidade Educação. Cada um destes vai continuar a ter espaço no campo da Educação, cumprindo funções específicas para as realidades dos diversos curricula que fazem parte dos variados universos de ensino. Torna-se assim relevante que os responsáveis por estas unidades de ensino reflictam no modo de adequação e interacção entre os PLE, os LMS e a tipologia de conteúdos que são abordados.
Reflexão Crítica
O aparecimento do termo PLE tem suscitado algumas perspectivas sobre a forma como o processo de ensino-aprendizagem tem e deverá evoluir. A evolução tecnológica tal como os Media Participativos, tiveram e têm um papel fundamental nessa evolução uma vez que provocaram mudanças sociais significativas, nomeadamente a transformação do processo de aprendizagem num processo mais participativo, activo e dinâmico.
Efectivamente, os Media Participativos contribuem para que a aprendizagem seja cada vez mais colaborativa e participativa, uma forma de aprender em que o utilizador não deve ser um mero consumidor de conteúdos, mas também produtor, e assim contribuir para o desenvolvimento da sua aprendizagem e da aprendizagem dos outros utilizadores. Os Media Participativos são um dos componentes de um PLE porque possibilitam ao utilizador o acesso a uma diversidade de recursos de aprendizagem quer formal quer informal, contribuindo para a aprendizagem ao longo da vida.
O processo de ensino-aprendizagem é, assim, um percurso construído cada vez mais pelas opções do utilizador; um percurso que advém das escolhas do próprio, desde as ferramentas que escolhe às comunidades a que pertence, desenhando os conhecimentos que apreende e, sobretudo, participando activamente e decisivamente na construção do seu "mundo de aprendizagem".
Perante esta perspectiva, para compreender a relação entre estes conceitos, desenhou-se o esquema apresentado abaixo que demonstra, de forma figurativa, que o indivíduo se encontra no centro das dinâmicas existentes entre ensino-aprendizagem, Media Participativos e PLE. Neste esquema sugere-se que a agregação desses três sectores principais – ensino-aprendizagem, Media Participativos e PLE – poderá resultar num novo espaço de actuação, no Shared Personal Learning Environment (ShaPLE). Este conceito é pensado e assim definido por Carlos Santos e Luís Pedro (2009) precisamente para colmatar a aparente falha de entendimento de que o processo ensino-aprendizagem actual, sendo social, participativo e colaborativo, não se deverá centrar meramente na vertente "Personal". Antes, deverá considerar a comunidade, o lado social, que de forma participativa e colaborativa participa no ensino e aprendizagem do indivíduo.
Comentários Finais
A sociedade têm-se alterado no sentido de mudar e de se adaptar aos desafios e contornos trazidos pela evolução tecnológica. Estas mutações acontecem em vários ramos da sociedade em que a tecnologia interfere, e que se têm revelado ser cada vez maior em número e em permeabilidade.
A educação é um sector em que o impacto da tecnologia tem uma dimensão de enorme relevo porque a sua influência veio agudizar a importância da acção do indivíduo e, ulteriormente, o impacto no seu percurso de vida. Efectivamente, os Media Participativos, resultado da crescente participação social que as alterações tecnológicas promoveram, tendem a provocar mudanças estruturais nos processos de ensino-aprendizagem, na forma como se pensa e organiza a educação, no papel do indivíduo no percurso da sua aprendizagem, na influência dos utilizadores-produtores na aprendizagem de outros indivíduos, e nas adaptações das instituições de ensino tradicional a todo este novo cenário educativo.
O Personal Learning Environment (PLE) surge, assim, como um produto desse novo perfil, como uma resposta às necessidades que resultaram das mudanças verificadas. Um PLE integra-se num conjunto de propostas cujo desenvolvimento acompanha as necessidades assinaladas, e poderá afigurar-se hoje como uma possibilidade que ainda procura definir os respectivos contornos e afirmar-se como tal.
Veja também
- Convergência nos Media
- Edupunk
- Empresa 2.0
- Informação/Jornalismo
- Media Participativos
- Política Participativa
Links externos
Referências bibliográficas
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