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Pensamento Crítico

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Tabela de conteúdo

O Pensamento Crítico

Existem diversas definições de Pensamento Crítico (PC), considerando que o conceito muda ao longo da história e de acordo com os diferentes contextos. Segundo Ennis (1996), o PC é um processo de tomada de decisões racionais acerca do que acreditar e do que fazer. É uma actividade reflexiva caracterizada por uma acção racional e sensata, e que envolve tanto “abilities” como “dispositions”, reportando-se aos aspectos cognitivos e afectivos, respectivamente. No sentido de identificar estas capacidades e disposições de PC, Ennis (1996), à semelhança de outros investigadores, organizou a sua concepção de PC em cinco áreas básicas: a clarificação elementar, o suporte básico, a inferência, a clarificação elaborada e ainda as estratégias e tácticas para implementar o PC. O nível de PC pode ser avaliado através do "Cornell Critical Thinking Test". Os aspectos do PC considerados neste estudo, podem ser subcategorizados na perspectiva de Ennis et all (1985), em sete aspectos: a indução, a dedução, o juízo de valor, a observação, a credibilidade, as assumpções e o significado. Estes são, segundo os autores, os aspectos que se podem encontrar num teste de PC do tipo geral.

Na Comunidade Critical Thinking o PC (Critical Thinking) é definido como "the intellectually disciplined process of actively and skillfully conceptualizing, applying, analyzing, synthesizing, and/or evaluating information gathered from, or generated by, observation, experience, reflection, reasoning, or communication, as a guide to belief and action” (Sriven & Paul 2007:1). O PC também é referido como metacognição (Templelaar, 2006; Moon, 2008) ou como o processo de "Thinking about thinking" inicialmente proposto por Flavell (1979).

Num estudo introdutório sobre o Pensamento Crítico, Fisher (2001) realiza uma análise bibliográfica do conceito de Pensamento Crítico à luz de diversos autores. A recolha bibliográfica de Fisher é resumida na seguinte tabela:

John Dewey A construção do conhecimento é um processo activo, de pensar ideias por si próprio, de se questionar, de encontrar informações relevantes às suas questões, ao invés de um processo passivo de recepção das ideias transmitidas por outros ou da tomada de decisões rápidas sem reflexão. Para este autor, o mais importante são as razões que levam a uma ideia e as implicações das crenças neste processo.
Edward GlaserApesar de fundamentado nas ideias de Dewey, foca a sua visão não nas razões que suportam as ideias, mas sim nas evidências. Refere o PC como uma atitude ou abertura para a reflexão sobre um problema e sobre a aplicação de um método para questionar e reflectir de forma lógica, referindo que não basta apenas a existência de competências para tal, mas sim a predisposição para a sua aplicação.
Robert EnnisDefine o PC como a forma reflectida e racional de pensamento focada na decisão sobre o que acreditar ou fazer. O autor coloca, assim, maior ênfase no processo de tomada de decisão, onde é o próprio que tem de decidir o que acreditar ou o que fazer.
Richard PaulDefine o PC como o modo de pensar, sobre qualquer tema, conteúdo ou problema, onde o pensador melhora o seu pensamento através das competências que vai adquirindo, melhorando a forma como estabelece o seu pensamento. Esta visão enfatiza a importância do pensador pensar e reflectir a forma como pensa e, de forma consciente, querer melhorá-la, de acordo com um modelo que considera válido.
Michael Scriven Considera que para ser crítico, o pensamento tem de obedecer a determinados padrões – clareza, relevância, razoabilidade, etc. Define, assim, como um processo activo que exige questionar, e pensar sobre o próprio pensamento. Exige interpretação dos dados, bem como a capacidade de seleccionar dentro de diversas alternativas, de avaliar, de questionar o mérito, a qualidade ou o valor. O autor destaca, assim, a avaliação da veracidade ou probabilidade dos argumentos.

Fisher conclui que não basta ter as competências para o Pensamento Crítico. É preciso colocá-las em prática nas mais diversas situações do dia-a-dia e compreender que usar essas competências podem melhorar o nosso entendimento em diferentes contextos. Complementa, ainda, que o pensamento crítico é muitas vezes apresentado como pensamento crítico-criativo, uma vez que para se avaliar bem argumentos e ideias é necessário ser-se capaz de pensar em alternativas e possibilidades. Para ser-se bom a julgar é preciso basear o julgamento em argumentos fortes, e para encontrá-los num curto espaço de tempo é preciso, muitas vezes, ser criativo.

Linda Elder (1996) relaciona o pensamento crítico e emoção, argumentando que o Pensamento Crítico não pode ter êxito a direccionar as nossas convicções e acções se não avaliarmos continuamente não só as nossas capacidades cognitivas, mas também os nossos sentimentos ou emoções.

van Gelder (2001) define pensamento crítico como a arte de estar certo, e considera que este pode ser fomentado de forma indirecta, através do estudo de outras temáticas, ou directa, através de práticas objectivas que promovam as competências cognitivas, devendo estas ser:

  • Motivadas – o aluno deve deliberadamente praticar a fim de melhorar as suas competências;
  • Guiadas – o aluno deve ter alguma forma de saber como fazer e o que fazer a seguir;
  • Scaffolded – especialmente nas fases iniciais, deve haver uma forma de impedir actividade inadequada;
  • Graduais – as tarefas devem aumentar gradualmente em complexidade;
  • Comentadas – o aluno deve ter alguma forma de dizer se uma determinada actividade foi bem-sucedida.

O autor considera que para se estimular o pensamento crítico é preciso estimular a transferência de conhecimentos entre áreas de saber, e que o estudo de temáticas muito específicas, como xadrez ou matemática, oferece pouca capacidade para transferir os conhecimentos para outros domínios. Por isso, defende que para estimular o pensamento crítico é necessário que os alunos aprendam a transferir conhecimentos entre diversas temáticas. No entanto, o autor refere-se à ideia de Lave, que todo o conhecimento e pensamento é específico e adequado a um determinado contexto/situação e que não existem contextos generalistas. No entanto, o projecto Reason!Able desenvolvido por van Gelder na Universidade de Melbourne, na Austrália, mostra que é possível fomentar o pensamento crítico com ideias generalistas.


A análise das visões dos diferentes autores permite-nos compreender que o PC: - é algo inerente ao indivíduo, relacionado com a sua capacidade de questionar e pensar por si próprio; - exige uma atitude e predisposição para a utilização de métodos e processos lógicos de pensamento; - tem implicações no processo de tomada de decisão; - pode ser desenvolvido e melhorado através da prática, de forma directa ou indirecta, mas preferencialmente de modo interdisciplinar, permitindo relacionar diversas áreas de saber; - exige o desenvolvimento de um conjunto de capacidades; - obedece a padrões - razoabilidade, clareza, relevância, entre outros; - exige a avaliação das emoções e da forma como estas se reflectem no pensamento.


A importância do Pensamento Crítico

Tenreiro-Vieira (2006) resume as principais razões que justificam a importância do pensamento crítico enquanto ideal educacional. Podemos entender que a primeira razão prende-se com o direito moral que assiste aos alunos de serem ensinados a pensar criticamente. A segunda razão vai ao encontro das competências intelectuais que o pensamento crítico promove na avaliação da credibilidade, na argumentação de ideias e na tomada de decisões, quer em contexto pessoal, quer em contexto profissional.

Assumindo que o Pensamento Crítico é um produto da educação que deve ser treinado e praticado (Snyder & Snyder, 2008) importa analisar de que forma se ensina, como se aprende e onde se aprende. Ao contrário do que se pensa, memorizar não é aprender e para aprender efectivamente é preciso pensar, isto é, construir intelectualmente o conteúdo de aprendizagem. Ter acesso à informação não é suficiente para se ser um estudante de sucesso nem, no futuro, um cidadão socialmente participativo na complexidade da vida moderna, fortemente condicionada pelo desenvolvimento tecnológico. O desenvolvimento de competências no domínio do pensamento crítico permite enfrentar e resolver problemas de todos os quadrantes da sociedade, tanto a nível profissional como pessoal (Shakirova, 2007:42).

"The future now belongs to societies that organize themselves for learning (...) nations that want high incomes and full employment must develop policies that emphasize the acquisition of knowledge and [thinking] skills by everyone, not just a select few" (Marshall & Tucker, 1992).

É por isso essencial fomentar o pensamento crítico quer na educação formal, desde o ensino básico até ao ensino superior, quer na formação ao longo da vida.

Projectos sobre Pensamento Crítico

Proposta de intervenção no Ensino Superior para fomentar o Pensamento Crítico Projecto_PCES

Links de interesse

Critical Thinking Skills in Education and Life - http://www.asa3.org/ASA/education/think/critical.htm

The Guide to Critical Thinking - http://www.criticalthinking.org.uk/

Critical Thinking Web - http://www.criticalthinking.net/

The Critikal Thinking Community - http://www.criticalthinking.org/

Association for Informal Logic & Critical Thinking - http://ailact.mcmaster.ca/

Higher Education on Critical Thinking - http://www.canberra.edu.au/studyskills/learning/critical

Pensamento Crítico: Analisar, construir e avaliar ideias - http://www.pensamentocritico.com/

OpenCourseWare on Critical Thinking, Logic, and Creativity - http://philosophy.hku.hk/think/


Bibliografia

Elder, Linda (1996). Inquiry: Critical Thinking Across the Disciplines, Winter, 1996. Vol. XVI, No. 2 [disponível em http://www.criticalthinking.org/articles/ct-emotional-intelligence.cfm, acedido em 23 de Fevereiro de 2010]

Ennis, R. (1996). Critical Thinking Dispositions: Their nature and assessability. Informal Logic, 18 (2), 165-182. [disponível em http://hrgpapers.uwindsor.ca/ojs/leddy/index.php/informal_logic/article/view/2378, acedido em 15 de Fevereiro de 2010].

Ennis, R. & Millman, J. (1985). Cornell critical thinking test, level X. Pacific Grove, CA: Midwest Publications.

Fisher, Alec (2001). Critical Thinking - An Introduction. Cambrisge University Press: 1-14

Flavell, J. H. (1979). Metagnotion and cognitive monitoring: A new area of cognitive-development inquiry. American Psychologist, 34, 906-911.

Marshall, R. & Tucker, M. (1992). Thinking For A Living: Education The Wealth of Nations, Basic Books New Work.

Moon, J. (2008). Critical Thinking: An exploration of theory and practice. New York: Routledge.

Sriven M. & Paul, R. (2007). Defining critical thinking. The Critical Thinking Community: Foundation for Critical Thinking.

Shakirova, D. M. (2007). Technology for the shaping of college students’ and upper-grade students’ critical thinking. Russian Education & Society, 49 (9), 42-52.

Snyder, L. G. & Snyder,M. J. (2008). Teaching Critical Thinking and Problem Solving Skills. The Delta Pi Epsilon Journal 50 nº 2, 90-99.

van Gelder, Tim (2001). How to Improve Critical Thinking using Educational Technology. Department of Philosophy. University of Melbourne, Australia. [ http://www.ascilite.org.au/conferences/melbourne01/pdf/papers/vangeldert.pdf, acedido em 21 de Fevereiro de 2010]

Templelaar, D. T. (2006). The role of metacognition in business education. Industry and Higher Education, 20(5), 291-297.

Tenreiro-Vieira, C. (2006). Produção e Avaliação de Actividades de Aprendizagem de Ciências para promover o pensamento Crítico dos Alunos. Revista Iberoamericana de Educación. [disponível em http://www.rieoei.org/deloslectores/708.PDF, acedido em 12 de Fevereiro de 2010].